domingo, 29 de junho de 2008

HOBSBAWN, Eric J. A Era dos Impérios 1875-1914. Cap. 5 “Bandeiras desfraldadas: Nações e nacionalismo”. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1988, pp. 203-267.

Neste capítulo, Hobsbawn propõe-se a discutir o surgimento dos inúmeros movimentos nacionalistas que remetem ao ciclo 1880-1914, um momento em que se pressupunha apaziguado um sentimento mobilizador assentado na unidade “nação”, de inspiração e fundo liberal, graças à unificação de Estados como a Alemanha e a Itália. Nesse sentido deu-se a utilização, já no processo de democratização das sociedades européias, de bandeiras nacionalistas por movimentos de extrema-direita, antepassados e futuros inspiradores dos partidos fascistas; a estes correspondeu, em outro campo, à noção de que Estados independentes, fundamentados no pressuposto de autodeterminação nacional, poderiam existir ainda que não demonstrassem viabilidade econômica, política e cultural (p. 206). Para tanto a identidade desses povos passou a ser identificado com processos culturais e lingüísticos principalmente, mais do que territoriais e geográficos. Ainda assim seria necessário, por fim, o reconhecimento de que a “autodeterminação nacional” só poderia dar-se por satisfeita na condição política da declaração de um Estado independente.

O autor demonstra como o “nacionalismo lingüístico foi criação de pessoas que escreviam e liam, não de gente que falava”, visto que requeriam certa padronização e compilação caso tencionassem obter um uso cotidiano (p. 209). Apesar de, em inúmeros casos, a língua não ter desempenhado o papel central na conformação da luta por uma identidade nacional, ainda assim teria demonstrado grande importância num processo que passou a considerar a própria natureza da “nacionalidade” não mais atrelada a um trecho cartográfico, correspondente a um dado grupo de indivíduos, mas a partir de então a uma “autonomia cultural” (p. 210). No caminho percorrido, o sentido de parentesco e “terra natal” passariam a abranger dimensões virtualmente metafóricas (p. 212), admitindo um significado muito mais amplo, que indo além da antiga comunidade rural, da vila ou da municipalidade, evolveria deste momento em diante o país. Pátria deixaria de implicar na cidade para implicar na totalidade não só do território como do povo. Essa identificação foi possibilitada com as grandes ondas migratórias do final do século XIX, as quais traziam às massas deslocadas um sentimento de nostalgia, dependente de uma resposta capaz de lhe preencher.

O aflorar de um sentimento nacionalista interessava, antes de tudo, às várias monarquias da época, ocupadas por linhagens estrangeiras necessitadas de se legitimar junto a seus súditos na Grécia, na Grã-Bretanha e em outros reinos europeus. O principal veículo por ele utilizado teria sido a educação primária nestes mesmos países.

SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. “Os fascismos”. in O Século XX. O tempo das certezas, organiz. Por Daniel Aarão Reis etalli, R.J. Civilização Brasileira, 2000, pp. 109 –163

Em Os fascismos, Francisco Carlos procura responder às indagações surgidas na última década do século XX, acerca do surgimento de movimentos neofascistas em inúmeros países europeus, propondo uma abordagem não mais tão presa às circunstâncias históricas da década de 20 na Alemanha e na Itália, como até então vinham se pautando as análises das ciências sociais, mas sim que buscasse os aspectos fenomenológicos do fascismo, capazes de explicar o porquê de essa ideologia política ter sobrevivido por tanto tempo. Inicialmente, portanto, seu artigo se pautará pelo debate historiográfico existente em torno do fascismo, apontando uma “demonização” da História alemã, a qual visaria explicar a ascensão do nazismo por traços distintos da sociedade germânica, além de uma abordagem estreita e reducionista por parte de certas correntes teóricas. Estas, devido às circunstâncias do embate ideológico da Guerra Fria, ora proporão teses como a do “totalitarismo”, capaz de abarcar sob o mesmo rótulo o stalinismo e o hitlerismo, ora simplesmente excluirão da qualidade de “fascistas” regimes e movimentos ainda envolvidos na luta internacional contra o comunismo e no plano geopolítico do Ocidente capitalista.

A partir daí, o autor apresenta aquelas que serão as características e diretrizes gerais de pensamento, comuns a todas as vertentes, movimentos e regimes fascistas, ainda que variassem em grau ou intensidade, e detivessem seus respectivos traços nacionais. Entre eles propagavam uma dura crítica ao liberalismo como doutrina e aos regimes liberais como sua aplicabilidade, tanto quanto a um suposto processo desagregador posto em curso com a Revolução Francesa e Industrial no século XVIII. Tais seriam responsáveis pela desarticulação do sentimento de pertencimento a uma comunidade popular (povo, nação, corporação, raça) e, logo, pelo culto a um individualismo e transitoriedade modernos, que reservavam apenas o desemprego e as incertezas às grandes massas, enquanto permitiam à burguesia usufruir do fruto do trabalho das primeiras.

Outro elemento muito presente na crítica fascista ao sistema liberal era a separação de espaços entre o público e o privado. Pensava no Estado de forma integral, não como um fim, mas sim um meio através do qual seriam capazes de atingir uma sociedade harmoniosa, do ponto de vista econômico, produtivo, étnico e político. Sendo então de suma importância, que a esse Estado coubesse reger, na forma dos decretos e leis impostos pelo chefe nacional (o Duce, o Führer, o Generalíssimo), virtualmente todos os aspectos da vida de seu povo, inclusive em termos de laços afetivos. Nesse sentido, um princípio de alteridade regia seu projeto universal, implicando na exclusão e mesmo perseguição do Outro, não aceito na futura sociedade de homens fascistas, homens perfeitos. O Outro, muitas vezes o judeu, por representar a diversidade cultural ou o cosmopolitismo, poderia de maneira semelhante a do parlamentarismo, exercer um poder desagregador, semelhante também ao do “bolchevismo”. A este se contrapunham os fascismos, pois reconhecendo a natureza da luta de classes, não a encaravam como um processo voltado para sua própria superação, mas um maléfico fruto da modernidade. Para contê-lo seria necessário um novo tipo de organização geral da sociedade, vide a impossibilidade de reproduzir a ordem do Antigo Regime, ainda que nele se espelhassem: o corporativismo.

Se a luta de classes marxista, gerada pelo liberalismo partidário e individualista, reconhecedor de interesses difusos no cerne da nação, pressupunha assim um corte vertical a dividir a pátria, a doutrina fascista apregoava uma união vertical, em que os interesses dos vários setores, em especial do Capital e do Trabalho, seriam mediados harmonicamente pelo Estado, com sua burocracia partidária e administrativa. Como define o autor, o fascismo tinha um desejo contraditório de “instaurar uma sociedade orgânico-corporativa de fortes bases tecnológicas” (p. 152), residindo nesta sua capacidade de prometer um novo reino futuro ainda que com os benefícios da época presente, propagado graças a uma prática metapolítica, pensada no embate de vida ou morte, vitória ou derrota. Assim se constituiria o Führerstaat.

O autor ressalta também como os fascismos, para chegarem ao poder, tiveram de realizar inúmeras concessões, muitas vezes abandonando o combate ao grande capital ou ao sistema capitalista em si, sendo importante, dessa forma, ressaltar o caso de movimentos semelhantes que, no entanto, não conseguiram atingir os altos postos do governo, ou quando o fizeram, só foram capazes devido à aliança com forças conservadores majoritárias, porém não-fascistas.


POLANY, Karl. A Grande Transformação - as origens de nossa época. “Capítulo 12 - O Nascimento do Credo Liberal”. Rio de Janeiro, Editora Campus Ltda, 1980. Tradução de Fanny Wrobel, pp. 141-154

Polany inicia este capítulo estabelecendo que os preceitos do liberalismo econômico, fundamentado num mercado de trabalho livre, no padrão-ouro e no livre comércio, todos visando o estabelecimento de uma economia de mercado auto-regulável (p. 141), longe de ser implementado de imediato, ou de imediato constarem no compêndio ideológico dos seus defensores, foram construídos progressivamente. Tal pode ser constatado pelo autor ao se analisar o exemplo da indústria do algodão inglesa, cuja atividade há muito considerada propulsora do laissez-faire na Grã-Bretanha do século XIX, só estaria demonstrando seu interesse em “libertar-se da regulamentação na esfera da produção”, afinal a “liberdade na esfera da troca” poderia ser considerada deveras perigosa (p. 142). Como resultado, apenas na década de 1830 teria a teoria propugnada pelo laissez-faire tornado-se predominante, abrangendo agora políticas relativas ao comércio e ao “meio circulante sólido” com o padrão-ouro, esta depois do pânico de 1825 (p. 143).

O autor observa ainda como se delineou o crescimento da burocracia e serviços públicos centralizados em países como a Inglaterra, ao mesmo tempo em que se dava a ascensão das teorias liberais. Guiado pelo objetivo de “alcance global” envolvido no estabelecimento de um mercado auto-regulável (p. 144), os liberais utilitaristas percebiam que dependiam do governo para atingirem os mesmos. Posicionavam-se então em favor de métodos administrativos para validar uma ampla política liberal, em detrimento de meios parlamentares. Polany demonstra assim terem eles dependido do Estado para fazer valer e depois manter uma dita economia de livre mercado, tendo sido o preceito de laissez-faire inculcado nas políticas públicas “o produto a ação deliberada do estado” (p. 146), postura que não correspondeu sequer ao “contramovimento que se opôs ao mercado auto-regulável” da segunda metade do século XIX, tendo este surgido de maneira espontânea (p. 146).

A partir daí, o autor amplia sua análise, determinando uma cronologia que se encerra nas críticas ao direcionamento liberal presente nas políticas econômicas estatais a partir da década de 1930, resultante da crise sofrida nos anos anteriores. Esta teria levado inicialmente ao abandono do padrão-ouro, com a direção estatal da moeda e a decisão pelo não-pagamento dos credores internacionais, ambas consideradas violações fundamentais à teoria do laissez-faire. Na década de 1940 a derrota do liberalismo econômico se ampliaria, com o abandono da ortodoxia monetária e a introdução de uma economia regulada em razão das circunstâncias impostas pela deflagração da Segunda Guerra Mundial (p. 147). Em seguida, o autor busca desconstruir a visão dos teóricos liberais, que responsabiliza uma vasta frente formada desde sindicatos até monopólios e setores reacionários da grande propriedade rural, pelo início de um processo de regulamentação do mercado no final do século XIX cujo fim teria sido a extinção da própria ortodoxia liberal. Polany contesta esta visão demonstrando como mesmo liberais históricos defenderam na Áustria, na Prússia, na Grã-Bretanha e na França, “legislação antiliberal em relação à saúde pública, condições fabris, comércio municipal, seguro social, seguros de navegação, utilidades públicas, associações comerciais e assim por diante”, em vistas dos riscos que uma política puramente guiada pelo laissez-faire poderia representar à concretização do objetivo maior: um mercado auto-regulado.

sábado, 31 de maio de 2008

Resenha Homo Sapiens 1900

O filme Homo Sapiens 1900 (1998), do diretor sueco Peter Cohen, responsável também pelo roteiro, propõe-se a discutir o movimento formulado por cientistas europeus na virada do século XIX para o XX, denominado Eugenia, bem como seu impacto nas diversas ideologias e movimentos cuja formação era a ele contemporânea. Cohen, conhecido por seu documentário Arquitetura da Destruição (1989), em que aborda os preceitos estéticos e artísticos presentes na visão de mundo nacional-socialista, tenta se afastar em Homo Sapiens 1900 de uma narrativa que privilegie tal momento histórico, na tentativa de evitar repetições que poderiam desviá-lo do preceito original da película: demonstrar como um pensamento que apregoa teorias racistas e depreciativas, fazendo-se passar por uma ciência, conseguiu transformar políticas de Estados tão diversos quanto os EUA, a Suécia, a Alemanha nazista, e a União Soviética, ainda no período bolchevique (sendo estes os casos mais abordados pelo diretor), enquanto seduziu suas populações e conquistou o mundo acadêmico?

Na visão de Cohen, a Eugenia tanto como busca pela perfeição estética quanto “orgênica”, seria desenvolvida a partir de duas premissas fundamentais. A primeira, localizada à época de sua criação, estaria envolta em todo o contexto do século XIX, marcado pela crença junto ao meio científico de que a constituição biológica do homem encontrava-se em claro processo de degenerescência, indo de encontro ao contínuo progresso material oferecido à espécie humana com a indústria e o modo de produção capitalista. A outra, caso use uma definição braudeliana, seria de longa duração, remontando à natureza intrínseca dos indivíduos de construírem padrões de beleza que eles próprios não teriam capacidade de atingir. Paradoxalmente, com os avanços científicos proporcionados pela exigência de crescimento exponencial da produtividade, dentre os intelectuais da década de 1890 e 1900 seria propagada a noção da ciência como o meio através do qual poderia ser possibilitada a concretização destes padrões. Para tanto, uma série de práticas como a higiene racial, a esterilização compulsória, a catalogação de seres humanos em grupos qualificados e desqualificados, seria exigida.

Isto é apontado pelo diretor numa interessante seqüência, em que ele mostra lado a lado, fotos antigas provavelmente do início do século XX, onde se encontram retratados monumentos e esculturas renascentistas acompanhados, à sua direita, por imagens de homens musculosos e uma jovem mulher tentando imitar a pose das estátuas, tomadas como exemplo do padrão mencionado.

Porém, o filme falha ao não apresentar claramente o contexto histórico no qual se deu a criação da Eugenia, não apenas como pseudo-estudo científico, mas ainda como filosofia de vida, ignorando ou esquecendo-se de apontar a atmosfera do momento, definida pela idéia de progresso, pela teoria da evolução das espécies, e pelo imperialismo, cada um representando importante peça para se compreender o surgimento de seus conceitos: do ideal de progresso pode ser apontado um fetichismo científico, que décadas antes, havia inspirado mesmo os princípios positivistas; Darwin e sua obra foram em grande parte utilizadas para mascarar preceitos de organização social, que encontravam na “inferioridade racial” e na miscigenação das camadas mais pobres da população européia a razão da pobreza em si; e na ânsia de justificar sua expansão, inúmeros Estados europeus, além dos EUA, valiam-se ora do discurso europocentrista ora de simples argumentos raciais, os quais consideravam inferiores as populações nativas de territórios africanos, asiáticos e mesmo americanos. Todos estes elementos são cruciais para compreender o processo abordado em Homo Sapiens 1900, mas acabam sendo marginalizados na abordagem de Cohen.

O documentário acerta, por outro lado, ao apontar nas visões de Francis Galton, responsável por desenvolver o conceito mesmo de Eugenia, os direcionamentos centrais do projeto de aprimoramento biológico então apresentado, com as formulações de “eugenia ‘positiva’”, a procriação com indivíduos de uma suposta qualidade superior no intuito de beneficiar as gerações posteriores, e “eugenia ‘negativa’”, sendo o ato de evitar a procriação entre indivíduos inferiores. Ambas, como aponta Cohen, visavam controlar e direcionar o processo de seleção natural na visão de seus autores, para o que o diretor utiliza uma analogia com o cultivo de plantas, referindo-se ao novo “cultivo” de famílias e núcleos sociais aperfeiçoados. Tal seria, para Ganton, a resposta ao crescimento desproporcional de uma população considerada física e mentalmente inferior, cujos altos índices de natalidade e concentração demográfica na Inglaterra da primeira década do século XX deixavam-no estarrecido. Outro ponto positivo do diretor é situar estas idéias no âmbito de um intenso debate acadêmico, provocado pelo resgate dos estudos de Mendel sobre hereditariedade. Este as ligava a genética, contraposto aos lamarckistas, que viam no ambiente e não na estrutura dos genes, o ponto de definição primordial das características hereditárias.

Entretanto, o que de início pode dar certa fluidez à narração do documentário, termina por funcionar como uma deficiência de raciocínio, visto que uma abordagem individualista, centrada nas ações e pensamentos de Galton e, posteriormente, outros cientistas europeus e americanos, exclui ainda mais quaisquer esforços aprofundados, por parte de Cohen, de ressaltar o contexto histórico da Eugenia. Figuras individuais, como Alfed Ploetz, criador do conceito de higiene racial, incidentalmente preenchem o lugar de fatores sociais, políticos e mesmo intelectuais, colaborando com deficiências técnicas do filme para represar-lhe um dinamismo de pensamento tão presente em Arquitetura da Destruição. Por “deficiências técnicas” deve-se ter em mente não o amplo acervo de fotos e vídeos do qual Cohen se vale, mas a prática de “fade in” que ele usa até a exaustão em Homo Sapiens 1900. Trata-se do escurecimento da tela após cada mini-capítulo ou argumento, sobreposto logo em seguida por outro quadro documental. A escolha de estilo está de acordo com o tom sombrio que o diretor resolveu trazer ao filme, mas termina por desviar a atenção do expectador enquanto reproduz o mesmo arranjo musical melancólico que percorre o documentário. Um tênue equilíbrio narrativo é mantido graças exatamente ao uso livre de imagens e ao arquivo de audiovisual do qual Cohen dispõe, valendo-se de gravuras do início do século XX como exemplo maior da conformação dos artistas para com o projeto eugenista.

Assim, apenas menciona de forma rasteira alguns dos conceitos que permanecem sem uma abordagem mais aprofundada, como o Darwinismo, cujo impacto é rapidamente mencionado, e o fetichismo científico. Este serve ao diretor na medida em que lhe permite abordar o fascínio para com a biologia. “Tudo é biologia” para os eugenistas, diz o narrador, o que inclui a arte, a política, a cultura e o comportamento cotidiano. Os resultados acabam abrangendo desde as primeiras inspirações do nazismo na década de 1920, passando pelo projeto do Estado de bem-estar social sueco da década de 1930, até chegar ao nudismo, formulado na Alemanha nos primeiros anos do século XX. A prática nudista iria além do culto à forma física para se tornar um elogio à raça teutônica e forma de desmascarar as verdadeiras condições físicas de homens e mulheres. A inserção de cenas do filme americano A Cegonha Negra, da década de 1910, que retrata renomado médico americano, maior expoente nacional da Eugenia, recusando ajuda a um recém-nascido considerado anormal são ao mesmo tempo contundentes e ilustrativas, permitindo ao expectador assistir às implicações concretas daquele pensamento e o quão dominante ela já havia se tornado (o próprio médico interpretou seu papel).

Um dos argumentos mais defendidos pelo diretor no decorrer o documentário é afirmar o caráter filosófico da Eugenia, e como ela sempre tentou tornar-se uma ciência, enquanto submetia a ciência “verdadeira” aos seus caprichos. Exime por meio dessa a comunidade científica em geral, que passa a ser no mínimo refém de radicais, e no máximo uma cúmplice passiva, cuja colaboração traduz-se em silêncio. É fácil para ele sustentar essa posição pelo fato de não ousar no escopo de sua análise. Um exemplo claro é quando menciona o Instituto de Biologia Racial de Uppsala, na Suécia, e a maneira deste dar um passo adiante nos estudos sobre eugenia ao utilizar conceitos extraídos da antropologia. O problema é que Cohen não vai além da simples menção à antropologia, desprezando o peso que ela, dentro de uma relação bilateral, desempenhou sobre a eugenia, atendo-se ao contrário, que traz conveniências, porém, menos possibilidades de informação.

Trata ainda como a eugenia, em sua forma mais essencial, nega a tradição familiar, apontando-a como um mecanismo de manutenção do movimento de degenerescência humana, entrando em confronto, nesse processo, com a moralidade burguesa apregoada pelos nazistas e com posturas relativamente mais moderadas dentro do regime soviético a partir da ascensão do stalinismo. Cohen consegue a partir daí apontar a mudança de direcionamento político do Kremlin, que se num primeiro momento favoreceu as pesquisas genéticas, encontrando nestas a possibilidade de obtenção da causa biológica do gênio, bem como da construção do Novo Homem socialista, em outro veria no discurso da biologia mendelista e nas teorias raciais um elemento propagador de ideologias de classe. Seguindo essa linha, coube a Stalin e ao Politburo determinarem o que era ou não adequado de se pesquisar em biologia, levando inclusive ao banimento do estudo da genética. O cineasta sueco consegue assim caracterizar o caminho percorrido pelas ciências dentro dos círculos políticos socialistas, que ao se tornarem representativas do nazi-fascismo foram indiscriminadamente “jogadas na clandestinidade”. Contra o diretor persiste a acusação de forçar suas conclusões acerca da ciência como vítima do discurso eugenista, e suas resistências em não se aprofundar no tema, ao exemplo do ideal de um “Novo Homem” socialista, que caso melhor abordado lhe permitiria tratar das influências do pensamento moderno nas utopias do século XX e, em conseqüência, na Eugenia.

Por fim, para Cohen o conflito maior na Eugenia se daria entre “o progresso e a saudade do passado” como afirma a narração do documentário, o que aponta a defasagem mencionada, localizando as origens da teoria eugenista não na modernidade, mas no movimento de oposição a ela. Ajuda, no entanto, a tornar o filme mais interessante, em especial no que concerne às visões de retorno aos padrões de beleza formados na Grécia Antiga e retomados durante o Renascimento, capitaneados mais por artistas do que cientistas em muitos casos. Vê-se nesse momento uma retomada da proposta de discussão estética que o diretor traz ao público em Arquitetura da Destruição.

De forma geral, o filme se sustenta em recursos imagéticos, falhando no âmbito narrativo, que conclui com um final de excesso dramático e politicamente correto. O esforço do diretor em fazer passar suas conclusões o coloca sujeito às mesmas fraquezas analíticas dos documentários de Michael Moore, mencionando-o simplesmente para finalidade comparativa. Porém, enquanto Moore consegue superar este déficit com o uso de ironia e humor, por mais sério que seja o assunto abordado, Cohen não foi bem-sucedido em achar uma estrutura que comportasse o nível trágico dos acontecimentos tratados e, ao mesmo tempo, guiasse o expectador de maneira dinâmica ao encará-lo com seus posicionamentos sobre a questão. Certos recursos, tal qual o escurecimento de tela, a composição musical e o tom melancólico da película, tornam ainda menos acessível ao público em geral um tema que, já em seu âmago, é difícil de ser abordado. A fórmula desgasta-se rapidamente e a última coisa que Cohen poderia querer acontece: a atenção se dispersa e a gravidade dos fatos narrados em pouco tempo é perdida. Seu maior mérito, entretanto, foi mostrar as “proporções utópicas” tomadas pela Eugenia, materializando o desejo do homem “controlar o futuro” de sua espécie através da ciência. Possibilitariam em dado período, não muito distante para os contemporâneos do movimento, a criação de um Novo Homem perfeito, um novo estágio evolutivo gerado artificialmente, com a mão da biologia e da genética: o Homo Sapiens 1900.


Homo Sapiens 1900
Direção: Peter Cohen
Ano: 1998
País: Suécia

quarta-feira, 28 de maio de 2008

HOBSBAWN, Eric J. A Era dos Impérios 1875-1914. Cap. 5 “Trabalhadores do Mundo”. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1988, pp. 163-2002.

O autor inicia este capítulo apresentando um quadro no qual, com a contínua expansão da indústria, tanto quanto do processo de democratização que remontava ao fim do século XIX, o proletariado tornava-se não só a classe com maior número de indivíduos integrantes, como também a maior fatia do eleitorado dos países europeus, e, portanto, a maior ameaça ao sistema econômico e político. O crescimento do número de trabalhadores manuais assalariados, em todo o mundo “banhado” pelas relações de produção capitalistas (p. 164), devia-se ao que estas implicavam, fosse com a abertura de novas fábricas, a produção de alimentos e bens manufaturados que suprissem as cidades, a mineração ou a extração de petróleo e demais matérias-primas, além dos “serviços municipais de utilidade pública” (p. 164) que demandavam cada vez mais mão-de-obra, como água, luz e esgotos. O aumento das cidades e a transferência de assalariados das oficinas artesanais e da agricultura contribuíam para aumentar as fileiras do operariado, em especial nos países que primeiro experimentaram a industrialização, caso da Inglaterra, e aqueles que passaram por sua própria revolução industrial no ciclo iniciado em 1870 (EUA, Japão, Europa ocidental e grandes concentrações de imigrantes brancos em outros pontos do globo – p. 165).

A produção industrial em expansão exigia mão-de-obra não-especializada a níveis maiores, isto porque ainda não tinha se mecanizado por completo. Progressivamente, as cidades iam sendo ocupadas pro populações ligadas ao trabalho secundário, empregadas nas indústrias ao invés de nos setores de serviço, e tal realidade não escapava a nenhum país em processo de industrialização (p. 168). A questão aos contemporâneos do processo era nas palavras de Hobsbawn: “Que aconteceria, na verdade, se os operários se organizassem politicamente como classe?” (p. 169). A resposta se daria na multiplicação de partidos de massas baseados nos interesses e lutas da classe operária a uma grande velocidade, inspirados em sua maior parte no compêndio teórico socialista revolucionário (p. 169). Em países como a Austrália, um Partido Trabalhista passou a formar o governo parlamentar em 1912, os Partidos Social-Democratas da Alemanha, além dos escandinavos, já haviam se consolidado como os maiores, e a cada ampliação do direito de voto as massas industriais mostravam-se “prontas para escolher o socialismo” (p. 170), formando não só exércitos de filiados, mas também se valendo de inúmeras organizações subjacentes (sindicatos e sociedades corporativas).

A força desses partidos residia, de acordo com o autor, na “elementar simplicidade de seu apelo apolítico” (p. 171), porém, apesar das predições dos líderes e militantes mais otimistas da época, esbarravam no obstáculo de dependerem da construção de uma classe trabalhadora homogênea para concretizarem seus desígnios políticos. As divisões internas do proletariado fossem de caráter social, cultural, religioso, étnico, sexual ou produtivo (acerca da posição ocupada no processo de divisão de trabalho), faziam deste apenas um anseio, e não uma realidade presente no momento. Ainda assim, a força da experiência de classe do operariado, somado à teoria marxista, com uma mensagem efetiva de êxito condicionado à união, e certas circunstâncias em que as diferenças e tensões étnicas, por exemplo, mantinham-se em níveis aceitáveis, permitia a organização do proletariado em torno de suas bandeiras. As identificações alternativas custaram ao operariado não a sua consciência de classe como tal, mas a “consciência política de classe” (p. 175), tal possibilitava por um lado a formação de sindicatos e movimentos de luta no contexto das indústrias, mas inviabilizavam a idéia de um partido de identificação classista. Em países já industrializados, os sindicatos já se tinham mesmo consolidado como forças poderosas, cuja autoridade se fazia presentes em diversos locais de trabalho, mas em outro eles continuavam a manterem-se distantes das indústrias pesadas, enfraquecidos pelo baixo número de membros e capacidade de mobilização. Destacam-se os mineiros, que mesmo em tais países conseguiram constituir forças representativas e unidas para sua categoria. O transporte, em contrapartida, passou a ser considerado “elemento crucial na luta de classes” (p. 179), sendo, portanto, um setor a se buscar a sindicalização. A experiência obtida pelo operariado nos antigos sindicatos de ofício juntamente com a percepção, nos primeiros anos do século XX, do novo fenômeno das greves gerais, renderam importantes debates no seio do movimento sindical e socialista.

Como conseguiram então, com tamanhas diferenças e heterogeneidades entre si, unirem-se em torno de movimentos razoavelmente unificados os operários do mundo ocidental? Para Hobsbawn a resposta está no fator ideológico, representado pelas teorias socialista e anarquista, cujos seguidores deles se aproximaram, levando seu evangelho de consciência e organização de classe a todo proletário (p. 180). Um processo de afastamento em relação a outras classes empobrecidas (tais quais os antigos artesãos e setores médios das oficinas) ou simplesmente não-burguesas (como as ligadas ao setor terciário), e destas em relação ao operariado, faziam-no consolidar sua base de identificação social. A centralização do sistema produtivo em torno dos Estados nacionais já apontava aos movimentos sindicais e socialistas qual deveria ser seu raio de ação a nível geográfico. O “sindicalismo industrial”, cobrindo setores nacionais da produção, refletia o sentido da economia como um “todo integrado” (p. 185), anunciado nesse processo. No plano político, os partidos socialistas levantavam, nos países em que persistiam as restrições eleitorais, a bandeira do sufrágio universal, como garantia de que dentro de um sistema eleitoral amplo o voto majoritário dos operários poderia vir, por fim, a determinar os rumos da administração central nos Parlamentos.

Dessa maneira, devido à necessidade inerente na democracia representativa de todos os grupos se organizarem para exercer pressão sobre os governos nacionais, no intuito de terem seus interesses ouvidos, influindo na aprovação ou não de legislações, o próprio Estado colaborava para unificar a classe (p. 186). O risco, no entanto, tornou-se o operariado ter no estado e na nação suas referências políticas, colocando em segundo plano o internacionalismo almejado no plano teórico.

A organização dos trabalhadores intensificou-se em dois momentos específicos: o primeiro, no final da década de 1880, em razão da formação da Segunda Internacional, responsável por trazer os socialistas À cena política; e a segunda, que se deu a partir da Primeira Revolução Russa de 1905, motivo de avanço para o movimento operário na Europa central, seguindo até a eclosão da Primeira Guerra Mundial, período em que testemunharam a implantação do sufrágio universal masculino em vários locais (p. 188). Ao mesmo tempo, passaram a desenvolver referências próprias em termos de esportes, vestuário, práticas sociais, pontos de encontro (o Clube, a taverna) e de abastecimento (a cooperativa), todas interligadas ao “seu” partido político (p. 190). Os partidos dessa estirpe tendiam a abraçar o marxismo, na visão do autor, por ele lhes oferecer uma análise que “demonstrava a inevitabilidade histórica de seu futuro triunfo” (p. 191), ocupando o lugar previamente reservado à religião. Dentro deles o grande debate daquele momento dava-se sobre qual seria a natureza da revolução a ser realizada pelo proletariado. A possibilidade de uma insurreição bem-sucedida parecia distante no horizonte histórico, o que levava elementos, à direita do movimento, apregoarem a necessidade deste ater-se aos reclamos imediatos de melhoria das condições de vida do operariado (p. 192). E a formação burocratizada dos partidos de massa, considerada elemento de passividade por certos elementos á esquerda, como os anarquistas, levavam à busca de alternativas não-partidárias. Tal se deve por muitas destas organizações, apesar de identificadas com o marxismo, propagarem um discurso mais próximo do jacobinismo radical, de fundamentação anticlerical, científica e racionalista, favorável à democracia representativa e ao lema Liberdade, Igualdade e Fraternidade, do que com as teorias marxistas propriamente ditas.

Semelhante comportamento, testemunhado nos partidos socialistas da Europa ocidental, explica-se de acordo com Hobsbawn, pelo fato deles se considerarem herdeiros de uma tradição revolucionária cujos maiores referenciais remontavam a 1848 e mesmo 1789. “O que mantinha estes partidos comprometidos com a completa revolução da sociedade” – afirma o autor – era o fato de “(...) até onde a maioria dos trabalhadores que esperavam melhorias podia julgar, todos os aperfeiçoamentos expressivos provinham, em primeiro lugar, da ação e da organização deles próprios, como classe” (p. 195).
HOBSBAWN, Eric J. A Era dos Impérios 1875-1914. Cap. 4 “A Política da Democracia”. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1988, pp. 125-161.

Hobsbawn inicia este capítulo apresentando, através da análise da Comuna de Paris, tanto quanto de seu impacto no mundo ocidental, o problema político da democratização da sociedade burguesa (1880-1914). O autor aponta então a distinção do “país real” para o “país legal” (HOBSBAWN, Eric J. A Era dos Impérios 1875-1914. Cap. 4 “A Política da Democracia”. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1988, p. 126), ou seja, entre as massas populares e os poderes institucionais que se outorgavam a alcunha de democráticos, como sendo o dilema básico do liberalismo no século XIX, cuja maior expressão se encontraria no direito de voto restrito a certos segmentos do sexo masculino, do qual se encontravam excluídos uma parcela considerável de homens e a totalidade das mulheres. “A ordem social – afirma Hobsbawn – entrou em perigo, desde o momento em que o ‘país real’ iniciou sua penetração no fechado recinto do ‘país legal’ ou ‘político’” (op. cit. p. 126), sendo este defendido pelos privilégios aristocráticos, presentes nas câmaras de pares hereditários, pelos requerimentos educacionais para a obtenção do direito de voto, e pelas “fortificações da propriedade” (op. cit. p. 126).

Governos e classes dominantes temiam que uma revolução popular, contida nas ruas, viesse a surgir de fato por meio das urnas. Tal, se os impeliu a atrasar o processo de massificação da democracia representativa, não os possibilitou impedir um processo que já se anunciava inexorável, tendo mesmo a bandeira pelo voto feminino deixado de tornar-se uma utopia. O autor argüiu que, se conflitos políticos domésticos de alguma forma contribuíram para o processo de democratização, o grande fator de aceleração deste teriam sido as agitações socialistas da década de 1890 e a primeira Revolução Russa de 1905 (op. cit. p. 128). Se entre 1880 e 1914 a questão fora como protelar a política democráticas a partir de então seria como manipulá-la, no que ressaltavam exemplos de restrições ao poder de ação das câmaras eleitas e a formação de câmaras secundárias, em certos casos compostas por membros hereditários, com capacidade de restringir ainda mais o campo das primeiras. Podendo ser mencionados ainda privilégios eleitorais a indivíduos que preenchessem certos requisitos educacionais, controle distrital e nominal do voto, aumento da faixa etária com direito de participação nas eleições, clientelismo, ou mesmo o uso de complicações relativas à inscrição nos registros eleitorais, que muitas vezes detinham o voto operário.

Porém, ao ter um convívio forçado com a democracia de participação mais ampla e sufrágio universal, tais Estados ainda tinham de encarar, em conseqüência, o surgimento de partidos, movimentos, uma mídia e propaganda de massas, as quais persistiam a atuar na arena política mesmo após a fase eleitoral. Seria a ascensão da retórica eleitoral e, ao mesmo tempo, de uma nova sociologia política, representada por Weber, Durkheim, Mosca e outros (op. cit. p. 130). Para o autor, certa “hipocrisia pública” surge da retórica formulada para vencer os eleitores, e a partir dela forma-se a sátira política, que atesta o abismo entre a promessa/discurso e a realidade (op. cit. p. 130-131). No entanto, Hobsbabwn também afirma que a mais formidável classe social a entrar na disputa política, com partidos e movimentos próprios, com o processo de massificação da democracia, seria a operária, sendo acompanhada pela pequena burguesia que se organiza em face do aumento do poder da alta burguesia, de uma classe média baixa em crescimento e dos sindicatos. A esta última interessava evitar a coletivização da propriedade por um lado, e a consolidação da grande propriedade por outro. Eram os movimentos dos “homens pequenos” (op. cit. p. 132), muitos eram nacionalistas e alguns xenófobos e anti-semitas. O campesinato, que desde a Depressão se mobilizara economicamente em vistas de defender uma política protecionista sobre seus produtos, formando cooperativas de compra, crédito e produção, não podia ser ignorado, relevando-se a realidade agrícola de muitos países europeus e estados nos EUA, surgindo o partido populista neste e sendo formado um projeto político social-revolucionário na Rússia (1902) com o apoio crucial de lavradores e fazendeiros.

Em oposição à ampliação de partidos e movimentos confessionais contrapunham-se uma mentalidade ultraconservadora, propagada por certos setores, e especialmente a Igreja Católica Romana, com grande capacidade de mobilizar fiéis em prol de suas causas contrárias às conquistas da modernidade. Fundam-se assim partidos cristãos enquanto a Igreja mostra-se preocupada em preservar os camponeses como sua principal base de apoio, porém mantendo reservas quanto à nova realidade laica e o preço que esta forçava a Santa Sé pagar para continuar a exercendo poder político diante das novas estruturas democráticas. Sua força eleitoral freqüentemente convergia para partidos reacionários ou conservadores, e não apenas partidos nomeadamente cristãos: “Contra o socialismo e a revolução, a Igreja apoiava qualquer coisa” (op. cit. p. 135). Mas se a religião desempenhava grande potencial político, a identificação nacional seria igualmente um importante fator de mobilização, inclusive mais eficaz de acordo com Hobsbawn.

O autor de propõe então a explanar acerca do modelo organizacional ideal dos partidos de massa no início do século XX. Tais estariam ligados a movimentos de base social, nacional ou religiosa, conformando variantes que se interligavam entre as apresentadas e consistindo num complexo de seções ou setores locais. Todas deteriam fins específicos ainda que integradas a um partido com “objetivos políticos mais amplos” (op. cit. p. 136). Tais movimentos seriam ideológicos:

“A religião, o nacionalismo, a democracia, o socialismo, as ideologias precursoras do fascismo de entre-guerras: tudo isso mantinha unidas as massas recém-mobilizadas, quaisquer que fossem os interesses materiais também representados por seus movimentos.” (op. cit. p. 138)

Outro fator de relevância envolve o caráter global, ou no mínimo nacional que esses movimentos de massa eram levados a ter dentro do processo de democratização, sepultando assim partidos e blocos regionais. Em decorrência disso os chefes políticos locais, mesmo que não desaparecessem, encontrar-se-iam agora subvencionados ao partido, com sua organização estratificada, hierarquizada, a qual não colocava a todos os seus integrantes em pé de igualdade, mas sim inseridos em um regime institucional à semelhança de um Estado.

Dois problemas afiguravam-se para os governos ocidentais quando encarados com a nova realidade democrática: o risco de nacionalidades ocupadas, como os irlandeses e poloneses, valerem-se das urnas para solidificar seus movimentos de autonomia, o que ameaça a própria constituição territorial desses Estados; e o risco de em um sistema político submetido à decisão eleitoral, programas políticos até então mantidos e acordados entre os antigos partidos, tal qual o livre-mercado na Inglaterra e o padrão-ouro, serem postos em risco caso as vontades populares os opusessem. A estas apreensões somavam-se algumas menos articuladas, porém igualmente fundamentadas, concernentes ao impacto que governos e parlamentos formados por homens sem independência financeira, como permitiam as novas leis eleitorais, poderiam sofrer perante a corrupção. A pesar disso, para Hobsbawn, “o único e verdadeiro desafio ao sistema era extraparlamentar” (op. cit. p. 145), e a este estaria reservada a coerção estatal, com o banimento de partidos e decretações da ilegalidade de greves. No mais, a burguesia sentia-se politicamente confiante, afinal a Depressão do final do século XIX já tinha passado, e uma nova era prometia prosperidade econômica no futuro, bem como a realização dos sonhos de prosperidade e progresso formulados nas décadas anteriores.

Para Hobsbawn, enquanto as classes dominantes e os Estados ocidentais haviam se adequado à nova realidade dos partidos e movimentos de massa, ainda tinham no movimento operário e socialista seu “alvo principal” (op. cit. p. 148) e nos movimentos nacionalistas ou separatistas sua grande ameaça, visto a dificuldade que tinham de entrar em acordo com estes. A questão passaria a ser como atrair os sindicatos e partidos operários para o “jogo institucionalizado da política” (op. cit. p. 148), dentro de um contexto de resistências por parte dos empregadores em aceitá-los e destes partidos recusarem qualquer acordo com o sistema ou Estado considerados burgueses, relevando a ligação de tais organizações com a internacional Socialista, de direcionamento marxista. Em contrapartida, por volta de 1900 passaria a ganhar força uma vertente que privilegiava o reformismo, mesmo dentro das correntes marxistas, o que possibilitaria uma contínua integração desses partidos no sistema eleitoral e posterior participação nos governos de frente parlamentar. As novas bandeiras de luta, nesse sentido, envolveriam programas de bem-estar social, direito à aposentadoria, seguros de saúde e desemprego, bolsas de trabalho, todos inseridos num processo de adequação dos níveis de descontentamento ao processo democrático. E por fim, se veria a redefinição do papel do Estado na economia, com a ampliação constante dos quadros burocráticos e suas incumbências. Ao Estado caberia difundir a partir de então sua própria simbologia, na forma de hinos nacionais, figuras heróicas e uma tradição, capaz de atiçar nas massas recém-recebidas no processo político, o sentimento nacional de lealdade.

Porém, nos anos que precederam a guerra, quando o processo de democratização parecia desaguar numa série de regimes e quadros políticos de estabilidade no Ocidente, uma série de ocorrências, como a “semana trágica” de Barcelona (1909), a greve geral da Suécia (1908), tanto quanto a vitória de outros movimentos operários (op. cit. p. 159) refletia a necessidade dos sistemas sócio-políticos demonstrarem sua viabilidade nas ações diretas, cotidianas. E dentro desse quadro, conseguiam traduzir apenas a fragilidade da ordem vigente. Hobsbawn termina por propor um questionamento: “Não seria (...) a estabilidade desse casamento entre a democracia política e o capitalismo florescente a ilusão de uma era transitória?” (op. cit. p. 160)
DECCA, Edgar de. “O colonialismo como a glória do império”. in O Século XX. O tempo das certezas, organiz. Por Daniel Aarão Reis etalli, R.J. Civilização Brasileira, 2000, pp. 153 –181

Em seu artigo, Decca define sua posição muito claramente logo nas primeiras páginas: “Na política imperialista a expansão é tudo” (p. 154). Para ele, a grande característica desse processo expansionista que atravessou a segunda metade do século XIX, tomando os estados europeus como exemplo de caso, teria sido determinada por uma necessidade “irrefreável” (p. 155) de ampliação e conquista de novos mercados. Tal se daria devido a sua qualidade capitalista, ancorada na necessidade de produção incessante de riquezas, inerente ao novo modo de produção.

Com suas bases sócio-econômicas e políticas, o próprio movimento expansionista teria levado à redefinição da estrutura do Estado-nação, cujos limites jurídicos entrariam em contradição com seus objetivos. Para Decca, o uso mesmo da expressão “imperialismo” seria equivocado, em vistas da ausência do desejo de construção de “impérios”, de instituições políticas e leis nas nações conquistadas, por parte dos agentes centrais (p. 157). Onde quer que houvessem presentes interesses comerciais ou riquezas estratégicas, visadas pela burguesia dos países europeus imperialistas, lá eles estariam fazendo valer seus interesses. Não se tratava, contudo, de obter apenas novos mercados e matérias-primas, mas também reinvestir o “capital acumulado” (p. 158), que não encontrava mais espaço para se reproduzir dentro dos limites impostos pelos Estados europeus. Dessa forma, Decca estabelece como premissa da competitividade internacional, que passou a se erigir entre as nações européias, a “crescente industrialização” (p. 158), por sua vez, indiretamente responsável, portanto, pela eclosão da Primeira Guerra Mundial.

O autor determina ainda como o maior fluxo de informações, pessoas e mercadorias possibilitou grandes mudanças no cotidiano do homem urbano, ocasionadas especificamente pela revolução tecnológica, que garantia maiores possibilidades de tempo livre e a criação de novas profissões. O turismo e o contato com o Outro, os povos nativos da colônia, garantia mudanças na percepção que o europeu/ocidental tinha de si próprio, visível na produção literária do período, marcada pelos romances de aventura, cujos autores mais representativos, Kipling e Conrad, retravam visões destoantes, porém, complementares da expansão imperialista (pp. 166-169). Por fim, as possibilidades geradas com a Revolução Industrial haviam ocasionado não só o surgimento da classe operária, mas de um compêndio de noções e ideais políticos que atendiam agora a seus interesses. Destes o socialismo obtém maior destaque pelo autor, sendo denominado um “outro sonho da modernidade”, com suas pretensões “internacionalistas” (p. 169) e o constante debate marcado pela dicotomia entre “Revolução ou reforma” (p. 171), em meio à construção de uma alternativa social-democrata e à utilização dos mecanismos fornecidos ao movimento pelo imperialismo que criticava (meios e comunicação e transporte mais rápidos e eficientes), para assistir sua expansão. Conclui Decca, com apontamentos acerca da Belle Époque, “ou a alegria de viver” (p. 175), relacionando a oportunidade de surgimentos de novas idéias e ciências, fosse por meio de Einstein, Freud, ou por outro lado dos eugenistas, com os avanços materiais e tecnológicos proporcionados ao longo da expansão imperialista.



SAID, Edward W. “Introdução”. Orientalismo: O Oriente como invenção do Ocidente, São Paulo: Companhia das Letras, 1990, pp. 13-39

Said inicia a introdução de seu livro citando os inúmeros estereótipos, muitos dos quais ainda vigentes a sua época, que os ocidentais desenvolviam e propagavam acerca do “Oriente”, quase sempre gravitando em torno um suposto “exotismo” regional (p. 13). Tal o leva diretamente a apresentar sua tese, de que o chamado orientalismo, como forma dos europeus no século XIX encararem um grande espaço do globo terrestre, ocupado por diversas nações, Estados, sistemas políticos e religiões, desempenhou papel de proeminência na própria experiência ocidental européia, traduzindo nesta a imagem do Outro. O Oriente, nesse sentido, seria uma construção intelectual, responsável por ajudar a “definir a Europa (ou o Ocidente), como sua imagem, idéia, personalidade e experiência de contraste” (pp. 13-14).

O autor estabelece ainda alguns preceitos que considera importantes ao apresentar o estudo sobre orientalismo, tais conformariam seus três sentidos: como pressuposto acadêmico; como distinção ontológica e epistemológica entre ocidente e oriente; e como fórmula ocidental encontrada para dominar e reestruturar o Oriente, tendo assim autoridade sobre a região dentro do quadro do imperialismo (pp. 14-15). Pelo fato do orientalismo ser a construção de um discurso, dele dependendo o estudo do Oriente, este não é um tema livre de pensamento e ação, afirma Said, reiterando a importância deste no fortalecimento da “identidade” cultural européia (p. 15) e sua existência a partir de um quadro de ocupação econômica e controle do Oriente pelos europeus, dentro do qual seria possível a formulação de uma imagem deste Outro. Mais uma questão de relevo envolve o contexto geopolítico da época, visto que até a ascensão americana no mundo pós-1945, pode-se afirmar que o orientalismo permaneceu uma empresa franco-britânica. Por essa razão, para Said, este derivaria de uma proximidade particular entre França, Grã-Bretanha e Oriente, ocupando da segunda metade do século XIX até a eclosão da Segunda Guerra Mundial.

Tais colocações abrem espaço para que o autor aponte o caráter propriamente histórico da expressão “Oriente”, localizado no tempo, e a própria natureza das regiões geográficas, definidas pelo homem enquanto indivíduo inserido em inúmeras experiências históricas. Mas Said argumenta: ainda assim, “a relação entre o Ocidente e o Oriente é uma relação de poder, de dominação” (p. 17), e somente através dela foi possível a orientalização do Oriente, não tendo este surgido de alguma “necessidade da imaginação” (p. 17). Assim, valendo-se da teoria gramisciana de dominação, o autor determina que todas as possíveis construções sobre o Oriente, feitas a partir da visão européia, estarão sempre submetidas a uma relação de “vantagem relativa” (p. 19), responsável por favorecer o ocidental em detrimento do Outro oriental.

A seguir, afirma ser proporcionada pelo estudo do orientalismo uma “distribuição de consciência geopolítica” (p. 24), enquanto existe envolto por uma série de relações de poder político com o poder intelectual. Põe-se então de frente à questão das relações entre a cultura e o imperialismo, presenciada na produção artística, e especificamente literária, do século XIX.
“A Era dos Impérios (1875-1914)” – Capítulo 2
“Uma Economia Mudando de Marcha”
Eric J. Hobsbawn

No Capítulo 2 de sua obra A Era dos Impérios, “Uma economia Mudando de Marcha”, Hobsbawn se propõe a analisar o ciclo percorrido pela economia capitalista no período de 1870 a 1913-1914, no limiar da Primeira Guerra mundial. Seu enfoque privilegia a visão de uma Depressão de aproximadamente vinte anos que teria sido suplantada por um período de prosperidade e crescimento, conhecido como belle époque. Um dos pressupostos mais importantes para se compreender a “Grande Depressão” de 1870-1890 é apreender sua natureza peculiar no compêndio histórico das crises capitalistas, marcada pela redução dos preços (deflação), dos juros e da taxa de lucros, considerados pelos economistas da época como produzidos pela falta de ouro.

Tal é importante para se entender o porquê das apreensões tidas naquele momento ainda que o campo produtivo não tivesse em momento algum encarado estagnação ou redução do crescimento e do processo de industrialização em certas áreas “desenvolvidas”. Porém, algumas das reações à crise, como aponta o autor, foram a busca por novos padrões monetários que atendessem à necessidade de aumento da taxa de lucro (o bimetalismo) e a resposta social gerada pelas dificuldades presentes, em especial, no setor agrícola (imigração e criação de cooperativas, as quais funcionariam como “válvulas de escape que mantinham a pressão social abaixo do ponto de rebelião ou revolução” – p. 61). Para este setor, Hobsbawn aponta, a queda nos preços representou conseqüências devastadoras. Outro fenômeno decorrente no mundo industrializado nesse momento envolvia a demanda por uma política protecionista, reivindicação defendida por inúmeros grupos de influência e eleitores junto a seus Estados, visando protegerem os produtores nacionais. A Grã-Bretanha foi o único país industrial importante a abraçar um “comércio livre e irrestrito” (p. 64) em meio a esse processo, visto que era o maior mercado exportador de produtos industriais, serviços e capitais, além de ser o maior importador de bens primários. Tratava-se da revisão da teoria econômica liberal, formulada em finais do século XVIII, não mais encarada como suficiente para a resolução das questões dominantes.

O protecionismo, que demonstrou a constituição de “economias nacionais” a partir da Depressão e da aceleração do processo industrializante, responsável pela ampliação da concorrência por mercados e consumidores (não mais apenas entre empresas, mas também entre nações), era percebido na “parcela ‘desenvolvida’ do mundo” (p. 68) e não no “mundo periférico”, onde a “economia nacional” detinha uma função diferente, amparando relações de dependência para com as metrópoles e de fornecimento de produtos primários para os mercados centrais. No entanto o próprio sistema protecionista, que nos países industrializados trouxe novas espécies de tarifas, inclusive punitivas (p. 63), não aparentava, de acordo com Hobsbawn, prejudicar o crescimento econômico dos mesmos, restringindo-se ao comércio de mercadorias e não afetando os movimentos de capitais e mão-de-obra.

Vale ressaltar que o protecionismo era somente uma das respostas do capitalismo à crise deflacionária por ele sofrida, havendo ainda um novo elemento de “concentração econômica” (p. 69), com a formação de trustes, monopólios e oligopólios, ao qual se somavam intentos de “administração científica” (p. 71), propagados especificamente pelas propostas do taylorismo: objetivava o aumento contínuo da produtividade das empresas por meio da utilização de conhecimento técnico no que concernia a sua organização e estrutura, tanto pensando na relação da máquina dentro da indústria, quanto em métodos capazes de “conseguir que os operários trabalhassem mais” (p. 71). Esta segunda foi obtida pela divisão de unidades produtivas (vinculadas ao movimento e tempo da produção), de uma gerência administrativa, além de variados sistemas de pagamento de salários, cuja função seria incentivar o esforço do trabalhador. Relevando ainda a importância do processo de expansão imperialista no que tangia à necessidade do capital por investimentos mais lucrativos, e da atividade produtiva por novos mercados, ambos de vital importância para que, com a redução da taxa de lucro, o montante deste continuasse a subir, permitindo investimentos no desenvolvimento de novas tecnologias. Os próprios movimentos operários e trabalhistas ganhariam força, com a percepção de muitos naquela época de que a Grande Depressão era um dos indícios da iminente queda do sistema capitalista, causado por contradições a ele inerentes.

Posteriormente, o autor se vale da teoria de Kondratiev da oposição entre ciclos de ascendência e decadência do capitalismo, para demonstrar como uma nova fase do capitalismo se apresentava para os países industrializados a partir de 1890: a belle époque. Esta trazia avanços científicos, aumento das riquezas, melhoria relativa da qualidade de vida dos trabalhadores, proporcionada pela redução dos preços advinda das décadas anteriores, e vislumbres de uma nova e próspera era. Tudo isso se somava a um contexto de aumento do poder econômico dos EUA e da Alemanha, transformada na maior nação exportadora, inserida num processo de aumento da faixa dos países industrializados ou “em vias de industrialização” (p. 77). Este elemento encontra-se ligado no trabalho de Hobsbawn, a uma série de conclusões por ele formuladas acerca da natureza da economia mundial na Era dos Impérios, representando a ampliação de sua base geográfica, alavancada pelo crescimento do mercado consumidor de produtos primários e do processo de industrialização em inúmeras partes do continente Europeu e Japão, garantindo a essa economia maior pluralidade do que antes. Pluralidade esta que levaria também ao acirramento da concorrência entre nações.

A revolução tecnológica de finais do século XIX, a qual coube proporcionar a exploração de novas tecnologias, como o motor de combustão, a eletricidade e a química, além do aço, ferro, vapor e aprimoramento das turbinas, seria uma das conclusões mencionadas. A ela se somaria: os métodos administrativos então desenvolvidos; a mudança qualitativa e quantitativa do mercado de bens de consumo, voltado agora para as “massas”, devido às maiores possibilidades de compra; o crescimento do setor terciário da economia – “trabalho em escritórios, lojas e outros serviços” (p. 83); e por fim a “convergência de política e economia”. Esta se por um lado traria parcerias cruciais para o desenvolvimento da iniciativa privada em setores estratégicos, sendo a indústria bélica seu exemplo mais nítido, por outro marcaria a ascensão de monopólios e da entrada do “setor público” (p. 84) em áreas consideradas de interesse coletivo, que levariam ao profundo questionamento da reminiscência liberal da livre competição e da iniciativa privada em si. Hobsbawn aponta que estes fatores gerariam a imagem positiva do período propagada por “europeus ricos” e segmentos das classes médias, ao qual tencionavam retornar após a Primeira Guerra Mundial, bem como proporcionariam as causas e raízes estruturais que desencadeariam as rebeliões, revoluções e a Guerra subseqüente. Conclui ele que em termos econômicos aquela foi uma época que marcou o surgimento de organismos como a sociedade anônima, o cartel e as “grandes empresas”, novos atores como o administrador de empresas, e novos papéis sociais a serem exercidos por eles.

HOBSBAWN, Eric. “A Era dos Impérios”. Rio de Janeiro; Paz e Terra, 1988, pp. 57-85.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

“A Era dos Impérios (1875-1914)” – Capítulo 1
“A Revolução Centenária”
Eric J. Hobsbawn

No texto A Revolução Centenária, primeiro capítulo de A Era dos Impérios, Hobsbawn procura descobrir as transformações ocorridas por/no capitalismo e no mundo em geral no período de cem anos, que separa a Revolução Francesa e Industrial do fim do século XIX, percebendo um mundo que se tornava mais unificado, “global” de fato (p. 31), cujas distâncias diminuíam e se ampliavam os horizontes demográficos e culturais, graças ao contato com povos de outros continentes. Ao mesmo tempo em que se geravam grandes divisões sócio-econômicas e mesmo de produção e trabalho, entre os agentes analisados, diferenças cada vez maiores e mais caracterizadoras, as quais contrapunham países ricos a países pobres, países industriais e pré-industriais, demonstrando as desigualdades inerentes ao processo de desenvolvimento.

A “base da revolução econômica” em questão, para o autor, era a própria defasagem entre os países ocidentais (p. 32), que adquiriu proporções mais amplas, envolvendo todos os continentes, expandindo mercados e a velocidade desse movimento constante. “A tecnologia – complementa Hobsbawn – era uma das causas dessa defasagem, tanto econômica quanto politicamente” (p. 32), tendo a Revolução Industrial como chave para a compreensão da mesma. Esta representaria um grande salto produtivo, redundando em mudanças de aspectos políticos, sociais e culturais de certas regiões européias, garantindo as estruturas de fundamentação do modo de produção capitalista. A industrialização, ao permitir o aumento da capacidade produtiva, forneceria a oportunidade para os povos britânico, francês e norte-americano, bem como outros posteriormente, de expandirem sua presença e autoridade sobre diversos povos, graças á superioridade técnica dos novos armamentos e explosivos, responsáveis por garantir a submissão dos “defasados”. Estes seriam considerados opostos aos “desenvolvidos” (p. 32), no que sua identidade externa passaria a ser forjada pelos conquistadores, visto que este “Segundo Mundo” não possuiria laços históricos, culturais ou estruturas sociais capazes de inserir, sob a mesma denominação, países da África, América Latina e Ásia, nem ao menos o denominador que os uniria a partir da segunda metade do século XX: a pobreza em massa (p. 33).

Ainda assim, é necessário determinar que a Revolução Industrial, com o desenvolvimento de novas vias de escoação da produção, do transporte de mão-de-obra, mercadorias e transferência de capitais, oportunidades mais sólidas para a consolidação de um mercado mundial seriam construídas, e a partir desse a própria dinâmica do processo de desenvolvimento geraria dependência, atraso e desigualdade entre regiões díspares. A industrialização permitiria de tal forma a existência de um abismo entre continentes, países, regiões localizadas no mesmo Estado, e cidades na mesma região. A questão era:

“Se a existência dos dois setores do mundo (desenvolvido e defasado) era inegável, as fronteiras entre eles eram, no entanto, indefinidas, sobretudo porque o conjunto de estados através dos quais e pelos quais foi feita a conquista econômica – e, no período que nos ocupa, a conquista política – do planeta, estava unido tanto pela história quanto pelo desenvolvimento econômico. Esse conjunto de estados era a Europa (...)” (p. 34)

Portanto, se disparidades existiam dentro na Europa, a história, a política e “os séculos de expansão sobre o Segundo Mundo” ligaram até as parcelas atrasadas do Primeiro Mundo, pensa o autor (p. 35). Um dos exemplos mais destacados é o da Rússia czarista, cuja inserção no Ocidente envolve uma política maciça de “industrialização segundo o modelo ocidental” (p.36). Ela traduziria uma das facetas mais marcantes do processo de desenvolvimento decorrente da “Revolução Centenária” do século XIX: Riqueza e Miséria passariam a ser pressupostos fundamentais, não-excludentes, reproduzidos pelo Capitalismo. Porém, Hobsbawn busca também demonstrar que, ao lado disso, uma gama de movimentos políticos de massa passava a surgir nos grandes centros urbanos e industriais, embriões dos futuros partidos de massa socialistas e operários, cuja contribuição na segunda metade do século, juntamente com o liberalismo, foi exigir o livre acesso ao conhecimento, muitas vezes concentrado nas mãos de uma elite intelectual.

Nesse contexto, para Hobsbawn, é possível identificar os segmentos e países que se tornaram periféricos ao processo contínuo que se desenrolava a partir de alguns centros europeus, e aqueles que dele se tornariam vítimas, os quais integravam o Segundo Mundo. A chave para entender como isto se realizou é a dependência por parte destes, dos modelos e sistemas considerados avançados e sua incapacidade se manterem afastados do comércio e da tecnologia ocidentais. Pois cogitar dividir o Primeiro e Segundo Mundos em termos de predomínio urbano e rural, respectivamente, tornar-se-ia insustentável, afinal existiam grandes cidades em países dependentes do Ocidente (Buenos Aires, Pequim, Bombaim, Constantinopla) e muitos espaços do mundo “desenvolvido” tenham permanecido predominantemente agrícolas. No entanto, a partir da década de 1880, é possível perceber que apenas em determinados pólos da Europa estão ocorrendo movimentos de urbanização e industrialização, além de nestes se desenrolar a consolidação de modelos políticos próprios, os quais passariam a ser considerados indispensáveis para o advento do “progresso”: um sistema envolto nos conceitos de “nações-Estado liberais-constitucionais” (p. 41). O problema que se anunciava concernia à constatação de que em muitos locais do Segundo Mundo não existiam “nações-Estado”, mas sim entrepostos e colônias de povoamento ou exploração européias, quando não organizações políticas atacadas pelo que Hobsbawn define como “raquitismo”: o Império Otomano; o Império Persa; o Império Chinês. Sendo que ainda existiam diferenças estruturais na forma de governo e regime encontrados na maioria dos países “desenvolvidos”, inclusive ao serem comparados com os do Segundo Mundo.

O autor demonstra ainda que, tendo a “mudança” como motor do processo de desenvolvimento, tal teria na expansão da cultura, do conhecimento e, especificamente, da aplicação deste na forma da tecnologia, seu maior mecanismo de materialização. Aumentou-se o número de indivíduos alfabetizados bem como o acesso à leitura, a universidade e a ópera transformavam-se em reflexos da “penetração da civilização ‘ocidental’ dominante” (p. 46), e novas descobertas no campo da medicina permitiam uma maior qualidade e duração de vida. Estes fenômenos, percebidos pelos seus contemporâneos, somados aos avanços nas áreas da siderurgia, metalurgia, química, e á percepção do crescimento da produção material, permitiam a formação de uma visão otimista em relação ao futuro, caracterizado por imagens de abundância e superação dos obstáculos impostos pela natureza.

Entretanto, se nos grandes centros do processo apontado esse “otimismo” era mais perceptível, como observa Hobsbawn, o mundo estava divido entre a região “onde o ‘progresso’ nascera” e outra, muito maior, “onde chegara como conquistador estrangeiro, ajudado por minorias de colaboradores locais” (p. 53). Isso levou ao fortalecimento de um movimento de resistência a tudo aquilo que a “modernidade” simbolizava ou poderia vir a significar, do qual a Igreja Católica tornara-se o epicentro. A imposição de modos de produção e troca até então desconhecidos por determinados povos, de novas práticas culturais, valores e conceitos éticos, tanto quanto o elemento de desigualdade gerado e gerador do sistema econômico, provocavam traumas de adaptação em populações à margem do movimento percebido como benéfico por setores considerados elitistas e citadinos. Outros, no entanto, abraçariam o significado do advento do “progresso”, tal qual a mocidade militar organizada na Turquia (os Jovens Turcos), as lideranças políticas na França, Grã-Bretanha e EUA, além da intelectualidade ligada aos setores dominantes na América Latina. Novas teorias, que se supunham científicas, proporiam a solução para o problema daquilo que se via como a resistência ao desenvolvimento humano, e mesmo o entrava a ele. Estas encontravam a explicação na constituição “racial” dos indivíduos, a partir da qual se poderia determinar a propensão de um povo a esse “progresso”.

Com a crise econômica da década de 1870, novos dilemas interpelariam o homem “ocidental”: “Aonde, na verdade, levava (o progresso)?” (p. 55). O que de fato poderia se extraído a partir dele, e que mundo tinha possibilidade de surgir a partir das mudanças obtidas com a “Revolução Centenária”, como formulou Hobsbawn?