DECCA, Edgar de. “O colonialismo como a glória do império”. in O Século XX. O tempo das certezas, organiz. Por Daniel Aarão Reis etalli, R.J. Civilização Brasileira, 2000, pp. 153 –181
Em seu artigo, Decca define sua posição muito claramente logo nas primeiras páginas: “Na política imperialista a expansão é tudo” (p. 154). Para ele, a grande característica desse processo expansionista que atravessou a segunda metade do século XIX, tomando os estados europeus como exemplo de caso, teria sido determinada por uma necessidade “irrefreável” (p. 155) de ampliação e conquista de novos mercados. Tal se daria devido a sua qualidade capitalista, ancorada na necessidade de produção incessante de riquezas, inerente ao novo modo de produção.
Com suas bases sócio-econômicas e políticas, o próprio movimento expansionista teria levado à redefinição da estrutura do Estado-nação, cujos limites jurídicos entrariam em contradição com seus objetivos. Para Decca, o uso mesmo da expressão “imperialismo” seria equivocado, em vistas da ausência do desejo de construção de “impérios”, de instituições políticas e leis nas nações conquistadas, por parte dos agentes centrais (p. 157). Onde quer que houvessem presentes interesses comerciais ou riquezas estratégicas, visadas pela burguesia dos países europeus imperialistas, lá eles estariam fazendo valer seus interesses. Não se tratava, contudo, de obter apenas novos mercados e matérias-primas, mas também reinvestir o “capital acumulado” (p. 158), que não encontrava mais espaço para se reproduzir dentro dos limites impostos pelos Estados europeus. Dessa forma, Decca estabelece como premissa da competitividade internacional, que passou a se erigir entre as nações européias, a “crescente industrialização” (p. 158), por sua vez, indiretamente responsável, portanto, pela eclosão da Primeira Guerra Mundial.
O autor determina ainda como o maior fluxo de informações, pessoas e mercadorias possibilitou grandes mudanças no cotidiano do homem urbano, ocasionadas especificamente pela revolução tecnológica, que garantia maiores possibilidades de tempo livre e a criação de novas profissões. O turismo e o contato com o Outro, os povos nativos da colônia, garantia mudanças na percepção que o europeu/ocidental tinha de si próprio, visível na produção literária do período, marcada pelos romances de aventura, cujos autores mais representativos, Kipling e Conrad, retravam visões destoantes, porém, complementares da expansão imperialista (pp. 166-169). Por fim, as possibilidades geradas com a Revolução Industrial haviam ocasionado não só o surgimento da classe operária, mas de um compêndio de noções e ideais políticos que atendiam agora a seus interesses. Destes o socialismo obtém maior destaque pelo autor, sendo denominado um “outro sonho da modernidade”, com suas pretensões “internacionalistas” (p. 169) e o constante debate marcado pela dicotomia entre “Revolução ou reforma” (p. 171), em meio à construção de uma alternativa social-democrata e à utilização dos mecanismos fornecidos ao movimento pelo imperialismo que criticava (meios e comunicação e transporte mais rápidos e eficientes), para assistir sua expansão. Conclui Decca, com apontamentos acerca da Belle Époque, “ou a alegria de viver” (p. 175), relacionando a oportunidade de surgimentos de novas idéias e ciências, fosse por meio de Einstein, Freud, ou por outro lado dos eugenistas, com os avanços materiais e tecnológicos proporcionados ao longo da expansão imperialista.
SAID, Edward W. “Introdução”. Orientalismo: O Oriente como invenção do Ocidente, São Paulo: Companhia das Letras, 1990, pp. 13-39
Said inicia a introdução de seu livro citando os inúmeros estereótipos, muitos dos quais ainda vigentes a sua época, que os ocidentais desenvolviam e propagavam acerca do “Oriente”, quase sempre gravitando em torno um suposto “exotismo” regional (p. 13). Tal o leva diretamente a apresentar sua tese, de que o chamado orientalismo, como forma dos europeus no século XIX encararem um grande espaço do globo terrestre, ocupado por diversas nações, Estados, sistemas políticos e religiões, desempenhou papel de proeminência na própria experiência ocidental européia, traduzindo nesta a imagem do Outro. O Oriente, nesse sentido, seria uma construção intelectual, responsável por ajudar a “definir a Europa (ou o Ocidente), como sua imagem, idéia, personalidade e experiência de contraste” (pp. 13-14).
O autor estabelece ainda alguns preceitos que considera importantes ao apresentar o estudo sobre orientalismo, tais conformariam seus três sentidos: como pressuposto acadêmico; como distinção ontológica e epistemológica entre ocidente e oriente; e como fórmula ocidental encontrada para dominar e reestruturar o Oriente, tendo assim autoridade sobre a região dentro do quadro do imperialismo (pp. 14-15). Pelo fato do orientalismo ser a construção de um discurso, dele dependendo o estudo do Oriente, este não é um tema livre de pensamento e ação, afirma Said, reiterando a importância deste no fortalecimento da “identidade” cultural européia (p. 15) e sua existência a partir de um quadro de ocupação econômica e controle do Oriente pelos europeus, dentro do qual seria possível a formulação de uma imagem deste Outro. Mais uma questão de relevo envolve o contexto geopolítico da época, visto que até a ascensão americana no mundo pós-1945, pode-se afirmar que o orientalismo permaneceu uma empresa franco-britânica. Por essa razão, para Said, este derivaria de uma proximidade particular entre França, Grã-Bretanha e Oriente, ocupando da segunda metade do século XIX até a eclosão da Segunda Guerra Mundial.
Tais colocações abrem espaço para que o autor aponte o caráter propriamente histórico da expressão “Oriente”, localizado no tempo, e a própria natureza das regiões geográficas, definidas pelo homem enquanto indivíduo inserido em inúmeras experiências históricas. Mas Said argumenta: ainda assim, “a relação entre o Ocidente e o Oriente é uma relação de poder, de dominação” (p. 17), e somente através dela foi possível a orientalização do Oriente, não tendo este surgido de alguma “necessidade da imaginação” (p. 17). Assim, valendo-se da teoria gramisciana de dominação, o autor determina que todas as possíveis construções sobre o Oriente, feitas a partir da visão européia, estarão sempre submetidas a uma relação de “vantagem relativa” (p. 19), responsável por favorecer o ocidental em detrimento do Outro oriental.
A seguir, afirma ser proporcionada pelo estudo do orientalismo uma “distribuição de consciência geopolítica” (p. 24), enquanto existe envolto por uma série de relações de poder político com o poder intelectual. Põe-se então de frente à questão das relações entre a cultura e o imperialismo, presenciada na produção artística, e especificamente literária, do século XIX.
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