HOBSBAWN, Eric J. A Era dos Impérios 1875-1914. Cap. 4 “A Política da Democracia”. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1988, pp. 125-161.
Hobsbawn inicia este capítulo apresentando, através da análise da Comuna de Paris, tanto quanto de seu impacto no mundo ocidental, o problema político da democratização da sociedade burguesa (1880-1914). O autor aponta então a distinção do “país real” para o “país legal” (HOBSBAWN, Eric J. A Era dos Impérios 1875-1914. Cap. 4 “A Política da Democracia”. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1988, p. 126), ou seja, entre as massas populares e os poderes institucionais que se outorgavam a alcunha de democráticos, como sendo o dilema básico do liberalismo no século XIX, cuja maior expressão se encontraria no direito de voto restrito a certos segmentos do sexo masculino, do qual se encontravam excluídos uma parcela considerável de homens e a totalidade das mulheres. “A ordem social – afirma Hobsbawn – entrou em perigo, desde o momento em que o ‘país real’ iniciou sua penetração no fechado recinto do ‘país legal’ ou ‘político’” (op. cit. p. 126), sendo este defendido pelos privilégios aristocráticos, presentes nas câmaras de pares hereditários, pelos requerimentos educacionais para a obtenção do direito de voto, e pelas “fortificações da propriedade” (op. cit. p. 126).
Governos e classes dominantes temiam que uma revolução popular, contida nas ruas, viesse a surgir de fato por meio das urnas. Tal, se os impeliu a atrasar o processo de massificação da democracia representativa, não os possibilitou impedir um processo que já se anunciava inexorável, tendo mesmo a bandeira pelo voto feminino deixado de tornar-se uma utopia. O autor argüiu que, se conflitos políticos domésticos de alguma forma contribuíram para o processo de democratização, o grande fator de aceleração deste teriam sido as agitações socialistas da década de 1890 e a primeira Revolução Russa de 1905 (op. cit. p. 128). Se entre 1880 e 1914 a questão fora como protelar a política democráticas a partir de então seria como manipulá-la, no que ressaltavam exemplos de restrições ao poder de ação das câmaras eleitas e a formação de câmaras secundárias, em certos casos compostas por membros hereditários, com capacidade de restringir ainda mais o campo das primeiras. Podendo ser mencionados ainda privilégios eleitorais a indivíduos que preenchessem certos requisitos educacionais, controle distrital e nominal do voto, aumento da faixa etária com direito de participação nas eleições, clientelismo, ou mesmo o uso de complicações relativas à inscrição nos registros eleitorais, que muitas vezes detinham o voto operário.
Porém, ao ter um convívio forçado com a democracia de participação mais ampla e sufrágio universal, tais Estados ainda tinham de encarar, em conseqüência, o surgimento de partidos, movimentos, uma mídia e propaganda de massas, as quais persistiam a atuar na arena política mesmo após a fase eleitoral. Seria a ascensão da retórica eleitoral e, ao mesmo tempo, de uma nova sociologia política, representada por Weber, Durkheim, Mosca e outros (op. cit. p. 130). Para o autor, certa “hipocrisia pública” surge da retórica formulada para vencer os eleitores, e a partir dela forma-se a sátira política, que atesta o abismo entre a promessa/discurso e a realidade (op. cit. p. 130-131). No entanto, Hobsbabwn também afirma que a mais formidável classe social a entrar na disputa política, com partidos e movimentos próprios, com o processo de massificação da democracia, seria a operária, sendo acompanhada pela pequena burguesia que se organiza em face do aumento do poder da alta burguesia, de uma classe média baixa em crescimento e dos sindicatos. A esta última interessava evitar a coletivização da propriedade por um lado, e a consolidação da grande propriedade por outro. Eram os movimentos dos “homens pequenos” (op. cit. p. 132), muitos eram nacionalistas e alguns xenófobos e anti-semitas. O campesinato, que desde a Depressão se mobilizara economicamente em vistas de defender uma política protecionista sobre seus produtos, formando cooperativas de compra, crédito e produção, não podia ser ignorado, relevando-se a realidade agrícola de muitos países europeus e estados nos EUA, surgindo o partido populista neste e sendo formado um projeto político social-revolucionário na Rússia (1902) com o apoio crucial de lavradores e fazendeiros.
Em oposição à ampliação de partidos e movimentos confessionais contrapunham-se uma mentalidade ultraconservadora, propagada por certos setores, e especialmente a Igreja Católica Romana, com grande capacidade de mobilizar fiéis em prol de suas causas contrárias às conquistas da modernidade. Fundam-se assim partidos cristãos enquanto a Igreja mostra-se preocupada em preservar os camponeses como sua principal base de apoio, porém mantendo reservas quanto à nova realidade laica e o preço que esta forçava a Santa Sé pagar para continuar a exercendo poder político diante das novas estruturas democráticas. Sua força eleitoral freqüentemente convergia para partidos reacionários ou conservadores, e não apenas partidos nomeadamente cristãos: “Contra o socialismo e a revolução, a Igreja apoiava qualquer coisa” (op. cit. p. 135). Mas se a religião desempenhava grande potencial político, a identificação nacional seria igualmente um importante fator de mobilização, inclusive mais eficaz de acordo com Hobsbawn.
O autor de propõe então a explanar acerca do modelo organizacional ideal dos partidos de massa no início do século XX. Tais estariam ligados a movimentos de base social, nacional ou religiosa, conformando variantes que se interligavam entre as apresentadas e consistindo num complexo de seções ou setores locais. Todas deteriam fins específicos ainda que integradas a um partido com “objetivos políticos mais amplos” (op. cit. p. 136). Tais movimentos seriam ideológicos:
“A religião, o nacionalismo, a democracia, o socialismo, as ideologias precursoras do fascismo de entre-guerras: tudo isso mantinha unidas as massas recém-mobilizadas, quaisquer que fossem os interesses materiais também representados por seus movimentos.” (op. cit. p. 138)
Outro fator de relevância envolve o caráter global, ou no mínimo nacional que esses movimentos de massa eram levados a ter dentro do processo de democratização, sepultando assim partidos e blocos regionais. Em decorrência disso os chefes políticos locais, mesmo que não desaparecessem, encontrar-se-iam agora subvencionados ao partido, com sua organização estratificada, hierarquizada, a qual não colocava a todos os seus integrantes em pé de igualdade, mas sim inseridos em um regime institucional à semelhança de um Estado.
Dois problemas afiguravam-se para os governos ocidentais quando encarados com a nova realidade democrática: o risco de nacionalidades ocupadas, como os irlandeses e poloneses, valerem-se das urnas para solidificar seus movimentos de autonomia, o que ameaça a própria constituição territorial desses Estados; e o risco de em um sistema político submetido à decisão eleitoral, programas políticos até então mantidos e acordados entre os antigos partidos, tal qual o livre-mercado na Inglaterra e o padrão-ouro, serem postos em risco caso as vontades populares os opusessem. A estas apreensões somavam-se algumas menos articuladas, porém igualmente fundamentadas, concernentes ao impacto que governos e parlamentos formados por homens sem independência financeira, como permitiam as novas leis eleitorais, poderiam sofrer perante a corrupção. A pesar disso, para Hobsbawn, “o único e verdadeiro desafio ao sistema era extraparlamentar” (op. cit. p. 145), e a este estaria reservada a coerção estatal, com o banimento de partidos e decretações da ilegalidade de greves. No mais, a burguesia sentia-se politicamente confiante, afinal a Depressão do final do século XIX já tinha passado, e uma nova era prometia prosperidade econômica no futuro, bem como a realização dos sonhos de prosperidade e progresso formulados nas décadas anteriores.
Para Hobsbawn, enquanto as classes dominantes e os Estados ocidentais haviam se adequado à nova realidade dos partidos e movimentos de massa, ainda tinham no movimento operário e socialista seu “alvo principal” (op. cit. p. 148) e nos movimentos nacionalistas ou separatistas sua grande ameaça, visto a dificuldade que tinham de entrar em acordo com estes. A questão passaria a ser como atrair os sindicatos e partidos operários para o “jogo institucionalizado da política” (op. cit. p. 148), dentro de um contexto de resistências por parte dos empregadores em aceitá-los e destes partidos recusarem qualquer acordo com o sistema ou Estado considerados burgueses, relevando a ligação de tais organizações com a internacional Socialista, de direcionamento marxista. Em contrapartida, por volta de 1900 passaria a ganhar força uma vertente que privilegiava o reformismo, mesmo dentro das correntes marxistas, o que possibilitaria uma contínua integração desses partidos no sistema eleitoral e posterior participação nos governos de frente parlamentar. As novas bandeiras de luta, nesse sentido, envolveriam programas de bem-estar social, direito à aposentadoria, seguros de saúde e desemprego, bolsas de trabalho, todos inseridos num processo de adequação dos níveis de descontentamento ao processo democrático. E por fim, se veria a redefinição do papel do Estado na economia, com a ampliação constante dos quadros burocráticos e suas incumbências. Ao Estado caberia difundir a partir de então sua própria simbologia, na forma de hinos nacionais, figuras heróicas e uma tradição, capaz de atiçar nas massas recém-recebidas no processo político, o sentimento nacional de lealdade.
Porém, nos anos que precederam a guerra, quando o processo de democratização parecia desaguar numa série de regimes e quadros políticos de estabilidade no Ocidente, uma série de ocorrências, como a “semana trágica” de Barcelona (1909), a greve geral da Suécia (1908), tanto quanto a vitória de outros movimentos operários (op. cit. p. 159) refletia a necessidade dos sistemas sócio-políticos demonstrarem sua viabilidade nas ações diretas, cotidianas. E dentro desse quadro, conseguiam traduzir apenas a fragilidade da ordem vigente. Hobsbawn termina por propor um questionamento: “Não seria (...) a estabilidade desse casamento entre a democracia política e o capitalismo florescente a ilusão de uma era transitória?” (op. cit. p. 160)
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