quarta-feira, 28 de maio de 2008

HOBSBAWN, Eric J. A Era dos Impérios 1875-1914. Cap. 5 “Trabalhadores do Mundo”. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1988, pp. 163-2002.

O autor inicia este capítulo apresentando um quadro no qual, com a contínua expansão da indústria, tanto quanto do processo de democratização que remontava ao fim do século XIX, o proletariado tornava-se não só a classe com maior número de indivíduos integrantes, como também a maior fatia do eleitorado dos países europeus, e, portanto, a maior ameaça ao sistema econômico e político. O crescimento do número de trabalhadores manuais assalariados, em todo o mundo “banhado” pelas relações de produção capitalistas (p. 164), devia-se ao que estas implicavam, fosse com a abertura de novas fábricas, a produção de alimentos e bens manufaturados que suprissem as cidades, a mineração ou a extração de petróleo e demais matérias-primas, além dos “serviços municipais de utilidade pública” (p. 164) que demandavam cada vez mais mão-de-obra, como água, luz e esgotos. O aumento das cidades e a transferência de assalariados das oficinas artesanais e da agricultura contribuíam para aumentar as fileiras do operariado, em especial nos países que primeiro experimentaram a industrialização, caso da Inglaterra, e aqueles que passaram por sua própria revolução industrial no ciclo iniciado em 1870 (EUA, Japão, Europa ocidental e grandes concentrações de imigrantes brancos em outros pontos do globo – p. 165).

A produção industrial em expansão exigia mão-de-obra não-especializada a níveis maiores, isto porque ainda não tinha se mecanizado por completo. Progressivamente, as cidades iam sendo ocupadas pro populações ligadas ao trabalho secundário, empregadas nas indústrias ao invés de nos setores de serviço, e tal realidade não escapava a nenhum país em processo de industrialização (p. 168). A questão aos contemporâneos do processo era nas palavras de Hobsbawn: “Que aconteceria, na verdade, se os operários se organizassem politicamente como classe?” (p. 169). A resposta se daria na multiplicação de partidos de massas baseados nos interesses e lutas da classe operária a uma grande velocidade, inspirados em sua maior parte no compêndio teórico socialista revolucionário (p. 169). Em países como a Austrália, um Partido Trabalhista passou a formar o governo parlamentar em 1912, os Partidos Social-Democratas da Alemanha, além dos escandinavos, já haviam se consolidado como os maiores, e a cada ampliação do direito de voto as massas industriais mostravam-se “prontas para escolher o socialismo” (p. 170), formando não só exércitos de filiados, mas também se valendo de inúmeras organizações subjacentes (sindicatos e sociedades corporativas).

A força desses partidos residia, de acordo com o autor, na “elementar simplicidade de seu apelo apolítico” (p. 171), porém, apesar das predições dos líderes e militantes mais otimistas da época, esbarravam no obstáculo de dependerem da construção de uma classe trabalhadora homogênea para concretizarem seus desígnios políticos. As divisões internas do proletariado fossem de caráter social, cultural, religioso, étnico, sexual ou produtivo (acerca da posição ocupada no processo de divisão de trabalho), faziam deste apenas um anseio, e não uma realidade presente no momento. Ainda assim, a força da experiência de classe do operariado, somado à teoria marxista, com uma mensagem efetiva de êxito condicionado à união, e certas circunstâncias em que as diferenças e tensões étnicas, por exemplo, mantinham-se em níveis aceitáveis, permitia a organização do proletariado em torno de suas bandeiras. As identificações alternativas custaram ao operariado não a sua consciência de classe como tal, mas a “consciência política de classe” (p. 175), tal possibilitava por um lado a formação de sindicatos e movimentos de luta no contexto das indústrias, mas inviabilizavam a idéia de um partido de identificação classista. Em países já industrializados, os sindicatos já se tinham mesmo consolidado como forças poderosas, cuja autoridade se fazia presentes em diversos locais de trabalho, mas em outro eles continuavam a manterem-se distantes das indústrias pesadas, enfraquecidos pelo baixo número de membros e capacidade de mobilização. Destacam-se os mineiros, que mesmo em tais países conseguiram constituir forças representativas e unidas para sua categoria. O transporte, em contrapartida, passou a ser considerado “elemento crucial na luta de classes” (p. 179), sendo, portanto, um setor a se buscar a sindicalização. A experiência obtida pelo operariado nos antigos sindicatos de ofício juntamente com a percepção, nos primeiros anos do século XX, do novo fenômeno das greves gerais, renderam importantes debates no seio do movimento sindical e socialista.

Como conseguiram então, com tamanhas diferenças e heterogeneidades entre si, unirem-se em torno de movimentos razoavelmente unificados os operários do mundo ocidental? Para Hobsbawn a resposta está no fator ideológico, representado pelas teorias socialista e anarquista, cujos seguidores deles se aproximaram, levando seu evangelho de consciência e organização de classe a todo proletário (p. 180). Um processo de afastamento em relação a outras classes empobrecidas (tais quais os antigos artesãos e setores médios das oficinas) ou simplesmente não-burguesas (como as ligadas ao setor terciário), e destas em relação ao operariado, faziam-no consolidar sua base de identificação social. A centralização do sistema produtivo em torno dos Estados nacionais já apontava aos movimentos sindicais e socialistas qual deveria ser seu raio de ação a nível geográfico. O “sindicalismo industrial”, cobrindo setores nacionais da produção, refletia o sentido da economia como um “todo integrado” (p. 185), anunciado nesse processo. No plano político, os partidos socialistas levantavam, nos países em que persistiam as restrições eleitorais, a bandeira do sufrágio universal, como garantia de que dentro de um sistema eleitoral amplo o voto majoritário dos operários poderia vir, por fim, a determinar os rumos da administração central nos Parlamentos.

Dessa maneira, devido à necessidade inerente na democracia representativa de todos os grupos se organizarem para exercer pressão sobre os governos nacionais, no intuito de terem seus interesses ouvidos, influindo na aprovação ou não de legislações, o próprio Estado colaborava para unificar a classe (p. 186). O risco, no entanto, tornou-se o operariado ter no estado e na nação suas referências políticas, colocando em segundo plano o internacionalismo almejado no plano teórico.

A organização dos trabalhadores intensificou-se em dois momentos específicos: o primeiro, no final da década de 1880, em razão da formação da Segunda Internacional, responsável por trazer os socialistas À cena política; e a segunda, que se deu a partir da Primeira Revolução Russa de 1905, motivo de avanço para o movimento operário na Europa central, seguindo até a eclosão da Primeira Guerra Mundial, período em que testemunharam a implantação do sufrágio universal masculino em vários locais (p. 188). Ao mesmo tempo, passaram a desenvolver referências próprias em termos de esportes, vestuário, práticas sociais, pontos de encontro (o Clube, a taverna) e de abastecimento (a cooperativa), todas interligadas ao “seu” partido político (p. 190). Os partidos dessa estirpe tendiam a abraçar o marxismo, na visão do autor, por ele lhes oferecer uma análise que “demonstrava a inevitabilidade histórica de seu futuro triunfo” (p. 191), ocupando o lugar previamente reservado à religião. Dentro deles o grande debate daquele momento dava-se sobre qual seria a natureza da revolução a ser realizada pelo proletariado. A possibilidade de uma insurreição bem-sucedida parecia distante no horizonte histórico, o que levava elementos, à direita do movimento, apregoarem a necessidade deste ater-se aos reclamos imediatos de melhoria das condições de vida do operariado (p. 192). E a formação burocratizada dos partidos de massa, considerada elemento de passividade por certos elementos á esquerda, como os anarquistas, levavam à busca de alternativas não-partidárias. Tal se deve por muitas destas organizações, apesar de identificadas com o marxismo, propagarem um discurso mais próximo do jacobinismo radical, de fundamentação anticlerical, científica e racionalista, favorável à democracia representativa e ao lema Liberdade, Igualdade e Fraternidade, do que com as teorias marxistas propriamente ditas.

Semelhante comportamento, testemunhado nos partidos socialistas da Europa ocidental, explica-se de acordo com Hobsbawn, pelo fato deles se considerarem herdeiros de uma tradição revolucionária cujos maiores referenciais remontavam a 1848 e mesmo 1789. “O que mantinha estes partidos comprometidos com a completa revolução da sociedade” – afirma o autor – era o fato de “(...) até onde a maioria dos trabalhadores que esperavam melhorias podia julgar, todos os aperfeiçoamentos expressivos provinham, em primeiro lugar, da ação e da organização deles próprios, como classe” (p. 195).

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