“A Era dos Impérios (1875-1914)” – Capítulo 1
“A Revolução Centenária”
Eric J. Hobsbawn
No texto A Revolução Centenária, primeiro capítulo de A Era dos Impérios, Hobsbawn procura descobrir as transformações ocorridas por/no capitalismo e no mundo em geral no período de cem anos, que separa a Revolução Francesa e Industrial do fim do século XIX, percebendo um mundo que se tornava mais unificado, “global” de fato (p. 31), cujas distâncias diminuíam e se ampliavam os horizontes demográficos e culturais, graças ao contato com povos de outros continentes. Ao mesmo tempo em que se geravam grandes divisões sócio-econômicas e mesmo de produção e trabalho, entre os agentes analisados, diferenças cada vez maiores e mais caracterizadoras, as quais contrapunham países ricos a países pobres, países industriais e pré-industriais, demonstrando as desigualdades inerentes ao processo de desenvolvimento.
A “base da revolução econômica” em questão, para o autor, era a própria defasagem entre os países ocidentais (p. 32), que adquiriu proporções mais amplas, envolvendo todos os continentes, expandindo mercados e a velocidade desse movimento constante. “A tecnologia – complementa Hobsbawn – era uma das causas dessa defasagem, tanto econômica quanto politicamente” (p. 32), tendo a Revolução Industrial como chave para a compreensão da mesma. Esta representaria um grande salto produtivo, redundando em mudanças de aspectos políticos, sociais e culturais de certas regiões européias, garantindo as estruturas de fundamentação do modo de produção capitalista. A industrialização, ao permitir o aumento da capacidade produtiva, forneceria a oportunidade para os povos britânico, francês e norte-americano, bem como outros posteriormente, de expandirem sua presença e autoridade sobre diversos povos, graças á superioridade técnica dos novos armamentos e explosivos, responsáveis por garantir a submissão dos “defasados”. Estes seriam considerados opostos aos “desenvolvidos” (p. 32), no que sua identidade externa passaria a ser forjada pelos conquistadores, visto que este “Segundo Mundo” não possuiria laços históricos, culturais ou estruturas sociais capazes de inserir, sob a mesma denominação, países da África, América Latina e Ásia, nem ao menos o denominador que os uniria a partir da segunda metade do século XX: a pobreza em massa (p. 33).
Ainda assim, é necessário determinar que a Revolução Industrial, com o desenvolvimento de novas vias de escoação da produção, do transporte de mão-de-obra, mercadorias e transferência de capitais, oportunidades mais sólidas para a consolidação de um mercado mundial seriam construídas, e a partir desse a própria dinâmica do processo de desenvolvimento geraria dependência, atraso e desigualdade entre regiões díspares. A industrialização permitiria de tal forma a existência de um abismo entre continentes, países, regiões localizadas no mesmo Estado, e cidades na mesma região. A questão era:
“Se a existência dos dois setores do mundo (desenvolvido e defasado) era inegável, as fronteiras entre eles eram, no entanto, indefinidas, sobretudo porque o conjunto de estados através dos quais e pelos quais foi feita a conquista econômica – e, no período que nos ocupa, a conquista política – do planeta, estava unido tanto pela história quanto pelo desenvolvimento econômico. Esse conjunto de estados era a Europa (...)” (p. 34)
Portanto, se disparidades existiam dentro na Europa, a história, a política e “os séculos de expansão sobre o Segundo Mundo” ligaram até as parcelas atrasadas do Primeiro Mundo, pensa o autor (p. 35). Um dos exemplos mais destacados é o da Rússia czarista, cuja inserção no Ocidente envolve uma política maciça de “industrialização segundo o modelo ocidental” (p.36). Ela traduziria uma das facetas mais marcantes do processo de desenvolvimento decorrente da “Revolução Centenária” do século XIX: Riqueza e Miséria passariam a ser pressupostos fundamentais, não-excludentes, reproduzidos pelo Capitalismo. Porém, Hobsbawn busca também demonstrar que, ao lado disso, uma gama de movimentos políticos de massa passava a surgir nos grandes centros urbanos e industriais, embriões dos futuros partidos de massa socialistas e operários, cuja contribuição na segunda metade do século, juntamente com o liberalismo, foi exigir o livre acesso ao conhecimento, muitas vezes concentrado nas mãos de uma elite intelectual.
Nesse contexto, para Hobsbawn, é possível identificar os segmentos e países que se tornaram periféricos ao processo contínuo que se desenrolava a partir de alguns centros europeus, e aqueles que dele se tornariam vítimas, os quais integravam o Segundo Mundo. A chave para entender como isto se realizou é a dependência por parte destes, dos modelos e sistemas considerados avançados e sua incapacidade se manterem afastados do comércio e da tecnologia ocidentais. Pois cogitar dividir o Primeiro e Segundo Mundos em termos de predomínio urbano e rural, respectivamente, tornar-se-ia insustentável, afinal existiam grandes cidades em países dependentes do Ocidente (Buenos Aires, Pequim, Bombaim, Constantinopla) e muitos espaços do mundo “desenvolvido” tenham permanecido predominantemente agrícolas. No entanto, a partir da década de 1880, é possível perceber que apenas em determinados pólos da Europa estão ocorrendo movimentos de urbanização e industrialização, além de nestes se desenrolar a consolidação de modelos políticos próprios, os quais passariam a ser considerados indispensáveis para o advento do “progresso”: um sistema envolto nos conceitos de “nações-Estado liberais-constitucionais” (p. 41). O problema que se anunciava concernia à constatação de que em muitos locais do Segundo Mundo não existiam “nações-Estado”, mas sim entrepostos e colônias de povoamento ou exploração européias, quando não organizações políticas atacadas pelo que Hobsbawn define como “raquitismo”: o Império Otomano; o Império Persa; o Império Chinês. Sendo que ainda existiam diferenças estruturais na forma de governo e regime encontrados na maioria dos países “desenvolvidos”, inclusive ao serem comparados com os do Segundo Mundo.
O autor demonstra ainda que, tendo a “mudança” como motor do processo de desenvolvimento, tal teria na expansão da cultura, do conhecimento e, especificamente, da aplicação deste na forma da tecnologia, seu maior mecanismo de materialização. Aumentou-se o número de indivíduos alfabetizados bem como o acesso à leitura, a universidade e a ópera transformavam-se em reflexos da “penetração da civilização ‘ocidental’ dominante” (p. 46), e novas descobertas no campo da medicina permitiam uma maior qualidade e duração de vida. Estes fenômenos, percebidos pelos seus contemporâneos, somados aos avanços nas áreas da siderurgia, metalurgia, química, e á percepção do crescimento da produção material, permitiam a formação de uma visão otimista em relação ao futuro, caracterizado por imagens de abundância e superação dos obstáculos impostos pela natureza.
Entretanto, se nos grandes centros do processo apontado esse “otimismo” era mais perceptível, como observa Hobsbawn, o mundo estava divido entre a região “onde o ‘progresso’ nascera” e outra, muito maior, “onde chegara como conquistador estrangeiro, ajudado por minorias de colaboradores locais” (p. 53). Isso levou ao fortalecimento de um movimento de resistência a tudo aquilo que a “modernidade” simbolizava ou poderia vir a significar, do qual a Igreja Católica tornara-se o epicentro. A imposição de modos de produção e troca até então desconhecidos por determinados povos, de novas práticas culturais, valores e conceitos éticos, tanto quanto o elemento de desigualdade gerado e gerador do sistema econômico, provocavam traumas de adaptação em populações à margem do movimento percebido como benéfico por setores considerados elitistas e citadinos. Outros, no entanto, abraçariam o significado do advento do “progresso”, tal qual a mocidade militar organizada na Turquia (os Jovens Turcos), as lideranças políticas na França, Grã-Bretanha e EUA, além da intelectualidade ligada aos setores dominantes na América Latina. Novas teorias, que se supunham científicas, proporiam a solução para o problema daquilo que se via como a resistência ao desenvolvimento humano, e mesmo o entrava a ele. Estas encontravam a explicação na constituição “racial” dos indivíduos, a partir da qual se poderia determinar a propensão de um povo a esse “progresso”.
Com a crise econômica da década de 1870, novos dilemas interpelariam o homem “ocidental”: “Aonde, na verdade, levava (o progresso)?” (p. 55). O que de fato poderia se extraído a partir dele, e que mundo tinha possibilidade de surgir a partir das mudanças obtidas com a “Revolução Centenária”, como formulou Hobsbawn?
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