sábado, 31 de maio de 2008

Resenha Homo Sapiens 1900

O filme Homo Sapiens 1900 (1998), do diretor sueco Peter Cohen, responsável também pelo roteiro, propõe-se a discutir o movimento formulado por cientistas europeus na virada do século XIX para o XX, denominado Eugenia, bem como seu impacto nas diversas ideologias e movimentos cuja formação era a ele contemporânea. Cohen, conhecido por seu documentário Arquitetura da Destruição (1989), em que aborda os preceitos estéticos e artísticos presentes na visão de mundo nacional-socialista, tenta se afastar em Homo Sapiens 1900 de uma narrativa que privilegie tal momento histórico, na tentativa de evitar repetições que poderiam desviá-lo do preceito original da película: demonstrar como um pensamento que apregoa teorias racistas e depreciativas, fazendo-se passar por uma ciência, conseguiu transformar políticas de Estados tão diversos quanto os EUA, a Suécia, a Alemanha nazista, e a União Soviética, ainda no período bolchevique (sendo estes os casos mais abordados pelo diretor), enquanto seduziu suas populações e conquistou o mundo acadêmico?

Na visão de Cohen, a Eugenia tanto como busca pela perfeição estética quanto “orgênica”, seria desenvolvida a partir de duas premissas fundamentais. A primeira, localizada à época de sua criação, estaria envolta em todo o contexto do século XIX, marcado pela crença junto ao meio científico de que a constituição biológica do homem encontrava-se em claro processo de degenerescência, indo de encontro ao contínuo progresso material oferecido à espécie humana com a indústria e o modo de produção capitalista. A outra, caso use uma definição braudeliana, seria de longa duração, remontando à natureza intrínseca dos indivíduos de construírem padrões de beleza que eles próprios não teriam capacidade de atingir. Paradoxalmente, com os avanços científicos proporcionados pela exigência de crescimento exponencial da produtividade, dentre os intelectuais da década de 1890 e 1900 seria propagada a noção da ciência como o meio através do qual poderia ser possibilitada a concretização destes padrões. Para tanto, uma série de práticas como a higiene racial, a esterilização compulsória, a catalogação de seres humanos em grupos qualificados e desqualificados, seria exigida.

Isto é apontado pelo diretor numa interessante seqüência, em que ele mostra lado a lado, fotos antigas provavelmente do início do século XX, onde se encontram retratados monumentos e esculturas renascentistas acompanhados, à sua direita, por imagens de homens musculosos e uma jovem mulher tentando imitar a pose das estátuas, tomadas como exemplo do padrão mencionado.

Porém, o filme falha ao não apresentar claramente o contexto histórico no qual se deu a criação da Eugenia, não apenas como pseudo-estudo científico, mas ainda como filosofia de vida, ignorando ou esquecendo-se de apontar a atmosfera do momento, definida pela idéia de progresso, pela teoria da evolução das espécies, e pelo imperialismo, cada um representando importante peça para se compreender o surgimento de seus conceitos: do ideal de progresso pode ser apontado um fetichismo científico, que décadas antes, havia inspirado mesmo os princípios positivistas; Darwin e sua obra foram em grande parte utilizadas para mascarar preceitos de organização social, que encontravam na “inferioridade racial” e na miscigenação das camadas mais pobres da população européia a razão da pobreza em si; e na ânsia de justificar sua expansão, inúmeros Estados europeus, além dos EUA, valiam-se ora do discurso europocentrista ora de simples argumentos raciais, os quais consideravam inferiores as populações nativas de territórios africanos, asiáticos e mesmo americanos. Todos estes elementos são cruciais para compreender o processo abordado em Homo Sapiens 1900, mas acabam sendo marginalizados na abordagem de Cohen.

O documentário acerta, por outro lado, ao apontar nas visões de Francis Galton, responsável por desenvolver o conceito mesmo de Eugenia, os direcionamentos centrais do projeto de aprimoramento biológico então apresentado, com as formulações de “eugenia ‘positiva’”, a procriação com indivíduos de uma suposta qualidade superior no intuito de beneficiar as gerações posteriores, e “eugenia ‘negativa’”, sendo o ato de evitar a procriação entre indivíduos inferiores. Ambas, como aponta Cohen, visavam controlar e direcionar o processo de seleção natural na visão de seus autores, para o que o diretor utiliza uma analogia com o cultivo de plantas, referindo-se ao novo “cultivo” de famílias e núcleos sociais aperfeiçoados. Tal seria, para Ganton, a resposta ao crescimento desproporcional de uma população considerada física e mentalmente inferior, cujos altos índices de natalidade e concentração demográfica na Inglaterra da primeira década do século XX deixavam-no estarrecido. Outro ponto positivo do diretor é situar estas idéias no âmbito de um intenso debate acadêmico, provocado pelo resgate dos estudos de Mendel sobre hereditariedade. Este as ligava a genética, contraposto aos lamarckistas, que viam no ambiente e não na estrutura dos genes, o ponto de definição primordial das características hereditárias.

Entretanto, o que de início pode dar certa fluidez à narração do documentário, termina por funcionar como uma deficiência de raciocínio, visto que uma abordagem individualista, centrada nas ações e pensamentos de Galton e, posteriormente, outros cientistas europeus e americanos, exclui ainda mais quaisquer esforços aprofundados, por parte de Cohen, de ressaltar o contexto histórico da Eugenia. Figuras individuais, como Alfed Ploetz, criador do conceito de higiene racial, incidentalmente preenchem o lugar de fatores sociais, políticos e mesmo intelectuais, colaborando com deficiências técnicas do filme para represar-lhe um dinamismo de pensamento tão presente em Arquitetura da Destruição. Por “deficiências técnicas” deve-se ter em mente não o amplo acervo de fotos e vídeos do qual Cohen se vale, mas a prática de “fade in” que ele usa até a exaustão em Homo Sapiens 1900. Trata-se do escurecimento da tela após cada mini-capítulo ou argumento, sobreposto logo em seguida por outro quadro documental. A escolha de estilo está de acordo com o tom sombrio que o diretor resolveu trazer ao filme, mas termina por desviar a atenção do expectador enquanto reproduz o mesmo arranjo musical melancólico que percorre o documentário. Um tênue equilíbrio narrativo é mantido graças exatamente ao uso livre de imagens e ao arquivo de audiovisual do qual Cohen dispõe, valendo-se de gravuras do início do século XX como exemplo maior da conformação dos artistas para com o projeto eugenista.

Assim, apenas menciona de forma rasteira alguns dos conceitos que permanecem sem uma abordagem mais aprofundada, como o Darwinismo, cujo impacto é rapidamente mencionado, e o fetichismo científico. Este serve ao diretor na medida em que lhe permite abordar o fascínio para com a biologia. “Tudo é biologia” para os eugenistas, diz o narrador, o que inclui a arte, a política, a cultura e o comportamento cotidiano. Os resultados acabam abrangendo desde as primeiras inspirações do nazismo na década de 1920, passando pelo projeto do Estado de bem-estar social sueco da década de 1930, até chegar ao nudismo, formulado na Alemanha nos primeiros anos do século XX. A prática nudista iria além do culto à forma física para se tornar um elogio à raça teutônica e forma de desmascarar as verdadeiras condições físicas de homens e mulheres. A inserção de cenas do filme americano A Cegonha Negra, da década de 1910, que retrata renomado médico americano, maior expoente nacional da Eugenia, recusando ajuda a um recém-nascido considerado anormal são ao mesmo tempo contundentes e ilustrativas, permitindo ao expectador assistir às implicações concretas daquele pensamento e o quão dominante ela já havia se tornado (o próprio médico interpretou seu papel).

Um dos argumentos mais defendidos pelo diretor no decorrer o documentário é afirmar o caráter filosófico da Eugenia, e como ela sempre tentou tornar-se uma ciência, enquanto submetia a ciência “verdadeira” aos seus caprichos. Exime por meio dessa a comunidade científica em geral, que passa a ser no mínimo refém de radicais, e no máximo uma cúmplice passiva, cuja colaboração traduz-se em silêncio. É fácil para ele sustentar essa posição pelo fato de não ousar no escopo de sua análise. Um exemplo claro é quando menciona o Instituto de Biologia Racial de Uppsala, na Suécia, e a maneira deste dar um passo adiante nos estudos sobre eugenia ao utilizar conceitos extraídos da antropologia. O problema é que Cohen não vai além da simples menção à antropologia, desprezando o peso que ela, dentro de uma relação bilateral, desempenhou sobre a eugenia, atendo-se ao contrário, que traz conveniências, porém, menos possibilidades de informação.

Trata ainda como a eugenia, em sua forma mais essencial, nega a tradição familiar, apontando-a como um mecanismo de manutenção do movimento de degenerescência humana, entrando em confronto, nesse processo, com a moralidade burguesa apregoada pelos nazistas e com posturas relativamente mais moderadas dentro do regime soviético a partir da ascensão do stalinismo. Cohen consegue a partir daí apontar a mudança de direcionamento político do Kremlin, que se num primeiro momento favoreceu as pesquisas genéticas, encontrando nestas a possibilidade de obtenção da causa biológica do gênio, bem como da construção do Novo Homem socialista, em outro veria no discurso da biologia mendelista e nas teorias raciais um elemento propagador de ideologias de classe. Seguindo essa linha, coube a Stalin e ao Politburo determinarem o que era ou não adequado de se pesquisar em biologia, levando inclusive ao banimento do estudo da genética. O cineasta sueco consegue assim caracterizar o caminho percorrido pelas ciências dentro dos círculos políticos socialistas, que ao se tornarem representativas do nazi-fascismo foram indiscriminadamente “jogadas na clandestinidade”. Contra o diretor persiste a acusação de forçar suas conclusões acerca da ciência como vítima do discurso eugenista, e suas resistências em não se aprofundar no tema, ao exemplo do ideal de um “Novo Homem” socialista, que caso melhor abordado lhe permitiria tratar das influências do pensamento moderno nas utopias do século XX e, em conseqüência, na Eugenia.

Por fim, para Cohen o conflito maior na Eugenia se daria entre “o progresso e a saudade do passado” como afirma a narração do documentário, o que aponta a defasagem mencionada, localizando as origens da teoria eugenista não na modernidade, mas no movimento de oposição a ela. Ajuda, no entanto, a tornar o filme mais interessante, em especial no que concerne às visões de retorno aos padrões de beleza formados na Grécia Antiga e retomados durante o Renascimento, capitaneados mais por artistas do que cientistas em muitos casos. Vê-se nesse momento uma retomada da proposta de discussão estética que o diretor traz ao público em Arquitetura da Destruição.

De forma geral, o filme se sustenta em recursos imagéticos, falhando no âmbito narrativo, que conclui com um final de excesso dramático e politicamente correto. O esforço do diretor em fazer passar suas conclusões o coloca sujeito às mesmas fraquezas analíticas dos documentários de Michael Moore, mencionando-o simplesmente para finalidade comparativa. Porém, enquanto Moore consegue superar este déficit com o uso de ironia e humor, por mais sério que seja o assunto abordado, Cohen não foi bem-sucedido em achar uma estrutura que comportasse o nível trágico dos acontecimentos tratados e, ao mesmo tempo, guiasse o expectador de maneira dinâmica ao encará-lo com seus posicionamentos sobre a questão. Certos recursos, tal qual o escurecimento de tela, a composição musical e o tom melancólico da película, tornam ainda menos acessível ao público em geral um tema que, já em seu âmago, é difícil de ser abordado. A fórmula desgasta-se rapidamente e a última coisa que Cohen poderia querer acontece: a atenção se dispersa e a gravidade dos fatos narrados em pouco tempo é perdida. Seu maior mérito, entretanto, foi mostrar as “proporções utópicas” tomadas pela Eugenia, materializando o desejo do homem “controlar o futuro” de sua espécie através da ciência. Possibilitariam em dado período, não muito distante para os contemporâneos do movimento, a criação de um Novo Homem perfeito, um novo estágio evolutivo gerado artificialmente, com a mão da biologia e da genética: o Homo Sapiens 1900.


Homo Sapiens 1900
Direção: Peter Cohen
Ano: 1998
País: Suécia

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