quarta-feira, 28 de maio de 2008

“A Era dos Impérios (1875-1914)” – Capítulo 2
“Uma Economia Mudando de Marcha”
Eric J. Hobsbawn

No Capítulo 2 de sua obra A Era dos Impérios, “Uma economia Mudando de Marcha”, Hobsbawn se propõe a analisar o ciclo percorrido pela economia capitalista no período de 1870 a 1913-1914, no limiar da Primeira Guerra mundial. Seu enfoque privilegia a visão de uma Depressão de aproximadamente vinte anos que teria sido suplantada por um período de prosperidade e crescimento, conhecido como belle époque. Um dos pressupostos mais importantes para se compreender a “Grande Depressão” de 1870-1890 é apreender sua natureza peculiar no compêndio histórico das crises capitalistas, marcada pela redução dos preços (deflação), dos juros e da taxa de lucros, considerados pelos economistas da época como produzidos pela falta de ouro.

Tal é importante para se entender o porquê das apreensões tidas naquele momento ainda que o campo produtivo não tivesse em momento algum encarado estagnação ou redução do crescimento e do processo de industrialização em certas áreas “desenvolvidas”. Porém, algumas das reações à crise, como aponta o autor, foram a busca por novos padrões monetários que atendessem à necessidade de aumento da taxa de lucro (o bimetalismo) e a resposta social gerada pelas dificuldades presentes, em especial, no setor agrícola (imigração e criação de cooperativas, as quais funcionariam como “válvulas de escape que mantinham a pressão social abaixo do ponto de rebelião ou revolução” – p. 61). Para este setor, Hobsbawn aponta, a queda nos preços representou conseqüências devastadoras. Outro fenômeno decorrente no mundo industrializado nesse momento envolvia a demanda por uma política protecionista, reivindicação defendida por inúmeros grupos de influência e eleitores junto a seus Estados, visando protegerem os produtores nacionais. A Grã-Bretanha foi o único país industrial importante a abraçar um “comércio livre e irrestrito” (p. 64) em meio a esse processo, visto que era o maior mercado exportador de produtos industriais, serviços e capitais, além de ser o maior importador de bens primários. Tratava-se da revisão da teoria econômica liberal, formulada em finais do século XVIII, não mais encarada como suficiente para a resolução das questões dominantes.

O protecionismo, que demonstrou a constituição de “economias nacionais” a partir da Depressão e da aceleração do processo industrializante, responsável pela ampliação da concorrência por mercados e consumidores (não mais apenas entre empresas, mas também entre nações), era percebido na “parcela ‘desenvolvida’ do mundo” (p. 68) e não no “mundo periférico”, onde a “economia nacional” detinha uma função diferente, amparando relações de dependência para com as metrópoles e de fornecimento de produtos primários para os mercados centrais. No entanto o próprio sistema protecionista, que nos países industrializados trouxe novas espécies de tarifas, inclusive punitivas (p. 63), não aparentava, de acordo com Hobsbawn, prejudicar o crescimento econômico dos mesmos, restringindo-se ao comércio de mercadorias e não afetando os movimentos de capitais e mão-de-obra.

Vale ressaltar que o protecionismo era somente uma das respostas do capitalismo à crise deflacionária por ele sofrida, havendo ainda um novo elemento de “concentração econômica” (p. 69), com a formação de trustes, monopólios e oligopólios, ao qual se somavam intentos de “administração científica” (p. 71), propagados especificamente pelas propostas do taylorismo: objetivava o aumento contínuo da produtividade das empresas por meio da utilização de conhecimento técnico no que concernia a sua organização e estrutura, tanto pensando na relação da máquina dentro da indústria, quanto em métodos capazes de “conseguir que os operários trabalhassem mais” (p. 71). Esta segunda foi obtida pela divisão de unidades produtivas (vinculadas ao movimento e tempo da produção), de uma gerência administrativa, além de variados sistemas de pagamento de salários, cuja função seria incentivar o esforço do trabalhador. Relevando ainda a importância do processo de expansão imperialista no que tangia à necessidade do capital por investimentos mais lucrativos, e da atividade produtiva por novos mercados, ambos de vital importância para que, com a redução da taxa de lucro, o montante deste continuasse a subir, permitindo investimentos no desenvolvimento de novas tecnologias. Os próprios movimentos operários e trabalhistas ganhariam força, com a percepção de muitos naquela época de que a Grande Depressão era um dos indícios da iminente queda do sistema capitalista, causado por contradições a ele inerentes.

Posteriormente, o autor se vale da teoria de Kondratiev da oposição entre ciclos de ascendência e decadência do capitalismo, para demonstrar como uma nova fase do capitalismo se apresentava para os países industrializados a partir de 1890: a belle époque. Esta trazia avanços científicos, aumento das riquezas, melhoria relativa da qualidade de vida dos trabalhadores, proporcionada pela redução dos preços advinda das décadas anteriores, e vislumbres de uma nova e próspera era. Tudo isso se somava a um contexto de aumento do poder econômico dos EUA e da Alemanha, transformada na maior nação exportadora, inserida num processo de aumento da faixa dos países industrializados ou “em vias de industrialização” (p. 77). Este elemento encontra-se ligado no trabalho de Hobsbawn, a uma série de conclusões por ele formuladas acerca da natureza da economia mundial na Era dos Impérios, representando a ampliação de sua base geográfica, alavancada pelo crescimento do mercado consumidor de produtos primários e do processo de industrialização em inúmeras partes do continente Europeu e Japão, garantindo a essa economia maior pluralidade do que antes. Pluralidade esta que levaria também ao acirramento da concorrência entre nações.

A revolução tecnológica de finais do século XIX, a qual coube proporcionar a exploração de novas tecnologias, como o motor de combustão, a eletricidade e a química, além do aço, ferro, vapor e aprimoramento das turbinas, seria uma das conclusões mencionadas. A ela se somaria: os métodos administrativos então desenvolvidos; a mudança qualitativa e quantitativa do mercado de bens de consumo, voltado agora para as “massas”, devido às maiores possibilidades de compra; o crescimento do setor terciário da economia – “trabalho em escritórios, lojas e outros serviços” (p. 83); e por fim a “convergência de política e economia”. Esta se por um lado traria parcerias cruciais para o desenvolvimento da iniciativa privada em setores estratégicos, sendo a indústria bélica seu exemplo mais nítido, por outro marcaria a ascensão de monopólios e da entrada do “setor público” (p. 84) em áreas consideradas de interesse coletivo, que levariam ao profundo questionamento da reminiscência liberal da livre competição e da iniciativa privada em si. Hobsbawn aponta que estes fatores gerariam a imagem positiva do período propagada por “europeus ricos” e segmentos das classes médias, ao qual tencionavam retornar após a Primeira Guerra Mundial, bem como proporcionariam as causas e raízes estruturais que desencadeariam as rebeliões, revoluções e a Guerra subseqüente. Conclui ele que em termos econômicos aquela foi uma época que marcou o surgimento de organismos como a sociedade anônima, o cartel e as “grandes empresas”, novos atores como o administrador de empresas, e novos papéis sociais a serem exercidos por eles.

HOBSBAWN, Eric. “A Era dos Impérios”. Rio de Janeiro; Paz e Terra, 1988, pp. 57-85.

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