“O capitalismo unifica o mundo”
Francisco José Calazans Falcon
Em O capitalismo unifica o mundo, de Falcon, o autor procura analisar historicamente a formação de um mercado mundial e como este correspondeu ao desenvolvimento do capitalismo como modo de produção hegemônico e instrumento de união, ou contato, global. Para tanto o trabalho se inicia com a busca da definição de “mercado”, bem como de sua existência histórica. Sobre ele, Falcon conclui ser:
“(...) um ‘sistema’ de dimensões variáveis que articula todo um conjunto de mercados concretos, de produtos destinados ao consumo ou a novos negócios, ou de fatores de produção (terras, capitais, trabalho).” (p.15)
A seguir, se pode observar o recorte adotado no trabalho, dividindo o amplo período abrangido pela obra, que se remete ao período das Grandes Navegações até chegar ao final do século XIX, entre um processo formador pré-capitalista e outro já contemplado pelos mecanismos de construção da supremacia capitalista, tal qual a Revolução Industrial. Questionando se o próprio sistema capitalista existia entre os séculos XVI e XVIII, Falcon demonstra que, para todos os efeitos, já existia um “mercado mundial” (p. 17), responsável por integrar e hierarquizar regiões e modos de produção distintos, distribuídos entre “centro, periferia e semi-periferia” (p. 17), sendo assim um período de transição, no qual o processo de acumulação de capitais garantiria o estabelecimento das estruturas sócio-econômicas futuras. Porém, mesmo isso não afastaria, para o autor, a historicidade do espaço e a coexistência ao mesmo tempo de diversas “economias-mundo” diferentes entre si, ainda que em contato.
Portanto, para que fosse possível compreender a formação do mercado mundial, do qual os europeus teriam sido os propulsores, seria imprescindível apreender o caráter primordialmente espacial do movimento expansionista, ocasionado com as Grandes Descobertas do século XVI, além de precisar dimensioná-lo temporalmente, delimitando-o em períodos e caracterizando suas principais conjunturas. Sendo possível assim contrapor o antigo regime econômico ao novo regime econômico: o primeiro marcado pelo predomínio da agricultura em relação a uma indústria mínima e desarticulada de bens de consumo, com precários meios e condições de transporte e comunicação, e uma dinâmica de crises de subsistência, ligadas à produção de trigo; e a segunda representando o predomínio da indústria pesada, do meio urbano sobre o campo, trazendo rápido desenvolvimento da técnica de produção e dos meios de transportar mercadorias, matérias-primas e mão-de-obra, vigorando uma nova dinâmica de crises de superprodução e baixa dos preços.
O autor trabalha a partir daí com uma cronologia de prosperidade e depressão, contrapondo as fases de crise àquelas de amplo crescimento, enquanto articula economia, política e cultura em torno do eixo comum da expansão comercial e colonial européia, pesando também o impacto das mudanças presentes na historiografia dos séculos XIX e XX, pois se na primeira era apontada a visão do processo de conquista a partir do europeu, com as guerras de independência das décadas de 1950 e 60, a segunda passaria a abordar o olhar dos “vencidos”, dos povos atingidos pela colonização (p. 22). Assim o faz, ressaltando por outro lado, ser “coisa do passado” a “antiga perspectiva de uma expansão passivamente ‘sofrida’ pelos não europeus” (pp. 23-24).
Falcon começará por analisar a expansão pré-capitalista, apontando seu caráter ambíguo, visto que materializaria a convivência de uma “Sociedade de Corte” (p. 26) absolutista, mercantilista, metalista, centralizada em torno da Coroa e amparada por antigas constituições feudais como os estados e as ordens, com outra sociedade em formação. Esta veria uma burguesia comercial ascendente, ora nas repúblicas italianas ora na região dos Países Baixos, um grupo de banqueiros que começava a se tornar credor de reinos bem como de inúmeros empreendimentos navais, uma ampliação jamais vista do conhecimento científico e de trabalhos filosóficos que, pouco a pouco, passariam a contestar a visão do Universo até então transmitida e aceita como verdadeira pela Igreja. Nesse momento a história do capital comercial passaria a compreender dois grandes circuitos ou “complexos de rotas mercantis: o intra-europeu e o extra-europeu” (p. 31), e a busca por essas rotas levaria ao descobrimento pelos europeus de novos entrepostos econômicos, novas civilizações, na Ásia e na América. Alguns traços comuns determinariam o modus operandi da ocupação européia nestes locais, valendo-se de brutal violência a partir da superioridade militar marítima, com o uso de canhões, cavalos e mosquetes, submetendo pela força os adversários, assegurando a presença da Coroa “organizando, fiscalizando, gerindo e ordenando a todos e a tudo”, e a conversão dos nativos ao Cristianismo (p. 35).
Alternando períodos de hegemonia ibérica, holandesa e anglo-francesa, essa fase pré-capitalista da expansão européia chegaria ao auge do “antigo sistema colonial” que produzira, no último quartel do século XVIII, pouco antes de atingir a crise do mesmo, estando essa ligada à crise do Antigo Regime como um todo e à ascensão de um novo projeto de sociedade, transmitido pela Revolução Francesa em seus aspectos ordenadores das novas instituições políticas, e a Revolução Industrial na Inglaterra, no que concerne aos aspectos econômicos do processo. A primeira demonstraria a possibilidade da formação de um regime político, estruturado jurídica e legalmente de acordo com os pressupostos da burguesia, e não mais da nobreza, enquanto a segunda representaria “a progressiva supremacia do capitalismo industrial, ou seja, da produção capitalista e da industrialização” (p. 39). Tal seria possível pelo fato de se encontrar localizado em meio ao período de disputa anglo-francesa, que já vislumbrava um mercado internacional no século XVIII, formado por conexões mercantis e financeiras que ultrapassavam os espaços regionais, e conformando uma economia-mundo cujos centros principais encontravam-se no continente europeu.
A Era do Capitalismo Industrial contará agora com uma série de novas estruturas políticas, econômicas e sociais, cuja implantação se dará num longo espaço de tempo, de forma “lenta e difícil”, acompanhando o desenvolvimento da Revolução Liberal (conceito de Hobsbawn utilizado pelo autor) enquanto convive com muitos aspectos remanescentes da sociedade passada, já em estado de decadência. E mesmo o processo de industrialização possuindo ritmos diferenciados, envolvendo certos Estados europeus e excluindo outros, graças à Revolução Industrial e política por ele propugnada será possível determinar a vitória do modo de produção capitalista, representado pela máquina e a fábrica, sobre o Antigo Regime. Dessa maneira abrangerá também outra significação, a da “tomada de consciência da modernidade” (p. 46), perceptível inclusive nas manifestações de oposição a ela. Após essa onda revolucionária que assolará a Europa, no século XIX um novo contexto, e logo, uma nova forma de expansão, poderá ser construída. Esta, ao mesmo tempo, romperá com o padrão expansionista dos três séculos anteriores enquanto manterá muitas de suas características, porém, com objetivos, finalidades, motivações e métodos diferentes daqueles presentes no momento histórico anterior, sendo viável a realização de um corte do antes e do depois à década de 1870-1880.
Agora atores sociais gerados a partir do novo regime burguês exercerão os papéis centrais no processo de conquista e ocupação: os exploradores (desbravadores, cientistas, botânicos, pesquisadores, cartógrafos) responsáveis pelo desbravamento de territórios e pelo atiçamento do interesse do público europeu nos mesmos; os missionários (comumente os primeiros a chegarem às novas regiões desbravadas e a ter contato com os povos nativos, transmitindo a eles o que consideram a fé e cultura superiores da Cristandade); os militares (sempre enviados quando percebidas ameaças à vida dos estrangeiros residentes no além-mar, ou ao menos aos tratados comerciais firmados com os potentados estrangeiros pelos governos europeus); e os empresários (industriais, banqueiros, financiarão o estabelecimento de colonos, investirão nos mercados potenciais dos continentes explorados e emprestarão altas somas de dinheiro para os potentados locais, estabelecendo contratos e alianças econômicas que muito interessarão os governos de seus países natais).
O autor expandirá ainda um pouco mais seu trabalho, apontando nessa nova fase de expansão do capital a presença da hegemonia britânica e da configuração de um novo sistema colonial caracterizado por um “imperialismo do livre-câmbio” (p. 55), demonstrando dentro deste as diferenças entre “colônias de povoamento”, “colônias de exploração”, zonas de influência e protetorados (p. 55). Ao optar por dividir os casos analisados entre Império Otomano, África sul-saariana, Regiões asiáticas e Américas, permitirá a escolha dos mais ilustrativos dentre eles. Como o do Egito, no qual Falcon aponta terem sido “típicos da expansão capitalista” (p. 57) os métodos utilizados pela França e pela Grã-Bretanha no seu avanço sobre o potentado africano:
“(...) penetração econômica, facilidades financeiras, demonstrações navais, negociações diplomáticas entre as potências, à revelia dos maiores interessados – os colonizados!” (p. 57)
Não se prendendo a ele, analisará o impacto exercido pela incursão francesa na Argélia, e como esta designará os preceitos da guerra colonial, pelos britânicos na estruturação de sua administração na Índia e a maneira como se valerão das divisões étnicas, religiosas e lingüísticas para assentarem seu domínio sobre o subcontinente, entre outros. No seu trabalho acadêmico o autor buscou ir além das tendências historiográficas dominantes à sua época, ressaltando como o próprio termo “imperialismo” passara a ser descartada pelos historiadores não-marxistas, ainda que não se aprofundasse acerca de discussões específicas sobre conceitos gerais.
“A Era dos Impérios (1875-1914)” - Introdução
Eric J. Hobsbawn
Na Introdução de seu livro A Era dos Impérios, Eric Hobsbawn inicia suas divagações apontando uma nota autobiográfica, na qual narra a história de seus pais, como sua mãe teria vindo de Viena para visitar o Egito e lá teria encontrado o funcionário colonial inglês estacionado no Delta do Nilo pelo qual se apaixonaria e com o qual formaria uma família. Seu argumento envolve a noção de que, antes de tudo, somente naquele momento histórico seriam possíveis as circunstâncias do encontro, buscando ainda demonstrar como a análise daquele período específico passa por uma série de obstáculos sendo o principal sua natureza de “zona de penumbra” (p. 18). Isto porque a dinâmica da análise histórica sobre processos recentes se dá, para o autor, entre a história acadêmica e a história existencial, sendo fruto da memória especial de cada um:
“Pois todo mundo é historiador da própria vida passada consciente, na medida em que elabora uma versão pessoal dela: um historiador nada confiável (...)” (p. 18)
Porém, no caso de períodos cruciais para a época contemporânea, ou ao menos encarados como cruciais, sendo suficientemente próximos para influenciarem os dias do historiador, mas distantes demais para dele se obter informações a partir de testemunhas diretas, se cria uma espécie diferente de imagem:
“incoerente e incompletamente percebida do passado (...), sempre transmitida por uma mescla de aprendizado e memória de segunda mão moldada pela tradição pública e particular.” (p. 18)
Esta é a atmosfera que impregnaria a análise da Era dos Impérios, já que, como demonstra Hobsbawn, culminando com a eclosão da primeira Guerra Mundial em 1914, representou o apogeu do “longo século XIX” (p. 19), bem como o fim de um mundo feito “por e para a burguesia” (p. 19), o anúncio de uma nova etapa de desenvolvimento do capitalismo e da cultura moderna, representando: o auge do imperialismo; a ascensão dos movimentos socialistas e trabalhistas; o declínio econômico britânico; a natureza e as origens da Revolução Russa; as raízes da questão internacional que culminaria na Primeira Grande Guerra. Por conta disso, a partir daí, o autor aponta a formação de duas correntes historiográficas, distintas na forma como encaram o momento histórico analisado. Uma se voltaria para o passado, para uma espécie de saudosismo e revisionismo, descrevendo como por uma série de incidentes se pôs fim a uma Era que não precisava ter necessariamente acabado. Outra se volta para o futuro, comparando estruturas contemporâneas ao historiador e suas origens com aquelas encontradas entre 1890-1914, tal qual o estado de bem-estar social, o predomínio dos partidos social-democratas nos parlamentos europeus, ou a própria existência de partidos de massa e democracias representativas.
Porém, a visão do autor sobre o objeto (no caso, o “longo século XIX”) move-se de acordo com um eixo central, sendo este a construção do “triunfo” e a “transformação” do modo de produção capitalista na sua “forma historicamente específica da sociedade burguesa em sua versão liberal” (p. 23), partindo da “capacidade ilimitada do sistema produtivo (...) em promover crescimento econômico e penetração mundial” (p. 23) permitida pelo advento da Revolução Industrial na Inglaterra, em fins do século XVIII. Assim, conclui Hobsbawn, o mundo burguês da Era dos impérios não era o mesmo da sociedade liberal burguesa da primeira metade do século XIX, nem em suas estruturas produtivas e nem nas sócio-econômicas e políticas, mas dela dependendo para existir como tal, num processo acumulativo. A forma em si como se encaravam os sustentáculos do período anterior deixava de ser guiada pelo pressuposto de uma “forma permanente do mundo industrial moderno” para tornar-se “uma fase de seu desenvolvimento inicial” (p. 26), portanto, uma etapa dentro de um lento, porém, constante movimento de construção não só dos fundamentos básicos de uma nova sociedade capitalista mas da identidade por ela adqüirida.
quarta-feira, 9 de abril de 2008
terça-feira, 25 de março de 2008
“Tudo que é sólido desmancha no ar: A aventura da modernidade”
Marshall Berman
O texto Modernidade: ontem, hoje e amanhã, introdução de Tudo que é sólido desmancha no ar, se propõe a analisar as reminiscências da Modernidade como processo de constante transformação do homem, em que ele se afirma ao mesmo tempo como agente e alvo dessas mudanças, e também dos conceitos por ele formulados em diversas épocas a respeito desse mesmo fenômeno. Nesse sentido, o autor detém-se consideravelmente nas formulações teóricas de Rousseau, Marx, Nietzsche e Foucault, considerando terem sido os três primeiros capazes de apreenderem o sentido e as raízes da modernidade e o último um exemplo de como a intelectualidade, a partir dos anos 70, teria se desligado do tema, ignorando a importância dos laços de união formados por ela, responsáveis por atingir a quase totalidade dos aspectos da vida humana. Em especial, Berman utiliza como exemplos de caso os diversos aspectos culturais do processo, traduzindo seu impacto nas artes, na literatura, na poesia, na arquitetura, e na própria forma como a arte passa a ser percebida, buscando englobar a partir dos anos 60 também o entretenimento de massas.
Antes de tudo, é importante estabelecer a visão do autor a respeito do tema. Para ele a modernidade “une a espécie humana” (p. 24), pois se trata de uma experiência que abrange a todos, sem qualquer distinção, envolvendo a destruição do antigo e a construção do novo, num movimento constante e ininterrupto. Sendo assim, ela implicaria uma união ambígua, visto que força todos a viverem sob uma permanente atmosfera de “desintegração e mudança, de luta e contradição, de ambigüidade e angústia” (p. 24). Esse sentimento levaria, por sua vez, à formulação tanto de mitos sobre um passado pré-moderno, dotado de qualidades utópicas, quanto de tradições oriundas da própria modernidade. O livro se propõe a ser, então, um estudo sobre a dialética do processo e do movimento de modernização, o conjunto de processos sociais do século XX que “dão vida” (p. 25) ao turbilhão de mudanças. O autor decide assim dividir a modernidade em três fases: a primeira iria do início do século XVI até finais do século XVIII – nele as pessoas começariam a sentir os da modernidade sem plena consciência do que esta envolveria, logo não havendo ainda uma comunidade a se chamar de moderna; a segunda começa coma Revolução Francesa de 1789 e a “onda revolucionária” a ela subseqüente, a partir da qual teria surgido abruptamente um “grande e moderno público” (p. 25) – porém, com sentimentos e pensamentos anteriores a esse momento convivendo com as convulsões sociais dele oriundas, durante o século XIX dois mundos conviveriam lado a lado, permitindo a posteriori uma dicotomia entre modernidade e modernização; a terceira açambarcaria o século XX, com a modernidade atingindo níveis incomensuráveis de expansão e desenvolvimento cultural, remetendo à tese do autor. Para Berman, ao crescer e se expandir, a modernidade perde definição, perdendo assim contato com suas próprias raízes.
A cada uma dessas fases corresponderiam determinadas vozes, responsáveis pela identificação dos preceitos filosóficos e explicativos que a visão sobre as profundas transformações sentidas emanaria. A primeira fase teria sido marcada por Jean-Jacques Rousseau, o primeiro a usar a palavra “modernist” (p. 26). Ele acabaria por tornar-se a matriz dos conceitos de democracia participativa, “auto-especulação psicanalítica”, entre outras “vitais tradições modernas” (p. 26). Sua contribuição mais importante teria sido perceber o turbilhão do tempo e a forma como o ser humano era para este, ao mesmo tempo, ator e testemunha. A virada da primeira para a segunda fase veria a drástica mudança da paisagem européia e ocidental, com o surgimento das fábricas, o aumento das cidades, o esvaziamento dos campos, a poluição, as novas máquinas, desenvolvidas, por sua vez, para atenderem uma nova estrutura de produção. Marx apontaria as radicais contradições existentes na bases de um processo que era simultaneamente o ápice do desenvolvimento humano e o gerador de profundas desigualdades sociais. Para ele, somente os homens modernos, a classe produto da modernidade (o operariado) seria capaz de absorver as contradições do processo, cujo motor seria a dialética, e a mudança e a incerteza seus paradigmas. Ampliando o escopo da análise, Nietzsche demonstrou que a constante mudança e a dialética moderna se batem inexoravelmente com a religião e o compêndio de normas morais da sociedade, já que estas estariam presas a dogmas (lida especificamente com o Cristianismo). Esse choque levaria a questões como a “morte de Deus” e o “advento do niilismo” (p. 32). Ou seja, ao esvaziamento dos valores morais apontados, que acompanhado pela ambigüidade moderna, traduzir-se-ia na possibilidade de individualização do processo e, portanto, no florescimento de novas possibilidades do pensar e do viver entre o gênero humano. Assim, enquanto o passo além da modernidade para Marx envolvia a revolução social e abrangeria o campo político, para Nietzsche o homem moderno seria o agente capaz de gerar um novo compêndio de valores, agora de acordo com o novo ciclo de destruição e criação. Ambos concordavam que só a nova espécie de homem que surgia tinha potencial para “curar os ferimentos” (p. 33) de suas épocas.
A proposta do autor começa a se tornar mais nítida, conforme ele aponta como a visão de modernismo do século XIX prosperou no século XX, crescendo “para além de suas próprias esperanças selvagens” (p. 34) e vislumbrando um desenvolvimento de praticamente todos os setores da cultura. “Ainda assim, – afirma Berman – parece-me, não sabemos como usar nosso modernismo; nós perdemos ou rompemos a conexão entre nossa cultura e nossas vidas” (pp. 34-35). Para ele ainda, os pensadores do século XX, inspirado pelas doutrinas formuladas no século anterior, “resvalaram para longe, na direção de rígidas polarizações e totalizações achatadas” (p. 35). Portanto, a intelectualidade parece ter sido também desligada da cultura modernista, ou ao menos de seus propósitos originais. O resultado no século XX será, na visão de Berman, uma divisão entre os defensores e os detratores da modernidade. Os dois encarariam as inovações técnicas, o apogeu da máquina, a reforma do modelo político representativo com o crescimento das incumbências do Estado, produzindo diferentes conclusões a respeito dos mesmos fatos. O debate se alastraria para o campo artístico e cultural, com os futuristas do início do século, por um lado exaltando as conquistas da ciência, acompanhados por expressões posteriores mais moderadas, tal qual Le Corbusier, Gropius e a Bauhaus. Por outro Weber com a sua A Ética protestante e o espírito do capitalismo, diagnosticaria uma “ordem inexorável capitalista, legalista e burocrática” (p. 39), mantendo oprimida e cativa dentro de si a raça humana. Não só a raça humana seria impotente para conter esse aprisionamento como a partir dele passaria a ser definida e construída em sua identidade. O autor aponta este como um dos indícios do abismo entre os pensadores de meados do século XIX e aqueles de mais de cinqüenta anos depois, afinal para Marx e Nietzsche os homens modernos tinham capacidade não só de conhecer as grades de suas novas prisões morais, sociais, políticas e econômicas, mas também de, tendo-as compreendido, combatê-las e transformá-las. “Aqui (século XX), como nas formas futuristas e tecnopastorais do modernismo, o homem como sujeito (...) desapareceu” (p. 39).
No campo político, destacando os anos 60 em vistas da agudez tomada pelo processo de modernização durante essa década, o grupo dos detratores do modernismo, à direita (afirmando inspirar-se em Weber), passaram a conjecturar um mundo em que a democracia representativa tornava o processo decisório algo sob o controle de massas ignorante, formada pelos homens da modernidade, “’homens-massa’ (ou homens-ocos)” (p. 40), incapazes de se auto-governar, quanto mais governar toda a sociedade, a partir do princípio decisório determinado pela maioria, sendo necessário o estabelecimento de uma aristocracia profissional e técnica, que fosse capaz de fazê-lo. Enquanto isso, a partir da formação da Nova Esquerda, que remonta a uma época aproximada, em especial com a publicação de trabalhos de Marcuse, o modernismo passaria a ser identificado com o consumismo alienante, responsável por tornar as massas despreparadas para o processo revolucionário. Isso através do “paradigma unidimensional” (p. 41), denominado pelo autor a partir da percepção em voga de que seria impossível qualquer mudança a partir do povo, por este ter tido um contato demasiado longo com a modernidade. Surgindo dessa maneira o culto a uma vanguarda capaz de fazer a Revolução. Ela deteria esse potencial exatamente por não ter sido intoxicada pela modernidade. O autor apresenta então três tendências dissonantes a partir das quais poderia ser dividido o modernismo nos anos 1960: a afirmativa, a negativa e a ausente. A divisão se voltaria em especial para as escolas artísticas e de pensamento surgidas a partir do período, cujas formulações em se tratando do processo de modernização seriam “mais grosseiras e mais simples, menos sutis e menos dialéticas” (p. 41) pelo fato de renegarem a ambigüidade do mesmo, escolhendo demonizá-lo por completo ou entronizá-lo pelos seus aspectos considerados positivos, argumenta Berman. Por essas razões, defende que os pensadores do século XIX, mais que os do século XX, teriam conseguido apreender o verdadeiro sentido da modernidade, seu dinamismo, sua transformação constante, seguida da igualmente constante “epopéia” da construção, num movimento em que o homem, longe de ser prisioneiro, era sujeito e reator, sentindo e fazendo sentir um processo que não era nem só destruição permanente nem estruturas imutáveis e independentes, possuindo uma essência em si dialética.
Ainda durante os anos 60 do século XX, dois fenômenos teriam sido gerados a partir da imagem de radicalismo transmitida durante a década: uma reação neoconservadora, que passou a fantasiar a possibilidade um mundo impermeável ao modernismo, encarado pela imagem de “perturbação” (p. 43); e uma visão positiva sobre a modernidade, propulsionada por artistas envolvidos com a pop culture, interessados em eliminar as fronteiras entre o que se considerava “arte” e as outras atividades humanas, como a moda, o design e a tecnologia industrial. De acordo com Berman, o problema nesse grupo se encontrava na falta de desenvolvimento de uma perspectiva crítica deste em relação ao mundo, considerando negativa sua faceta aparentemente apolítica. Porém, como o autor ressalta:
“Todas essas visões e revisões da modernidade constituíram orientações ativas em relação à história, tentativas de conectar o conturbado presente com o passado e o futuro, a fim de ajudar os homens e mulheres de todo o mundo contemporâneo a se sentirem em casa nesse mundo.” (p. 45)
Nos anos 1970, para outros escolásticos, Berman conclui, a modernidade deixará de ser considerada em toda a sua importância, sendo Foucault o único escritor a tratar o tema, fazendo-o ainda assim a partir de uma única dimensão do processo, não enxergando, na visão do autor, o dinamismo nela presente. Isto porque o pensador francês tentou demonstrar a percepção de uma rede de relações de poder da qual não haveria escapatória, nem ao menos para ele. Berman insiste ainda na função de seu trabalho ser um resgate do “dinâmico e dialético dinamismo do século XIX” (p. 48), visando aprofundar as nossas próprias raízes modernas apontando assim para a importância desse processo unificador, seja em termos individuais, culturais ou temporais. Afirmando, por fim, a natureza humana dessa mesma cultura modernista, integrando novamente o homem ao processo.
Marshall Berman
O texto Modernidade: ontem, hoje e amanhã, introdução de Tudo que é sólido desmancha no ar, se propõe a analisar as reminiscências da Modernidade como processo de constante transformação do homem, em que ele se afirma ao mesmo tempo como agente e alvo dessas mudanças, e também dos conceitos por ele formulados em diversas épocas a respeito desse mesmo fenômeno. Nesse sentido, o autor detém-se consideravelmente nas formulações teóricas de Rousseau, Marx, Nietzsche e Foucault, considerando terem sido os três primeiros capazes de apreenderem o sentido e as raízes da modernidade e o último um exemplo de como a intelectualidade, a partir dos anos 70, teria se desligado do tema, ignorando a importância dos laços de união formados por ela, responsáveis por atingir a quase totalidade dos aspectos da vida humana. Em especial, Berman utiliza como exemplos de caso os diversos aspectos culturais do processo, traduzindo seu impacto nas artes, na literatura, na poesia, na arquitetura, e na própria forma como a arte passa a ser percebida, buscando englobar a partir dos anos 60 também o entretenimento de massas.
Antes de tudo, é importante estabelecer a visão do autor a respeito do tema. Para ele a modernidade “une a espécie humana” (p. 24), pois se trata de uma experiência que abrange a todos, sem qualquer distinção, envolvendo a destruição do antigo e a construção do novo, num movimento constante e ininterrupto. Sendo assim, ela implicaria uma união ambígua, visto que força todos a viverem sob uma permanente atmosfera de “desintegração e mudança, de luta e contradição, de ambigüidade e angústia” (p. 24). Esse sentimento levaria, por sua vez, à formulação tanto de mitos sobre um passado pré-moderno, dotado de qualidades utópicas, quanto de tradições oriundas da própria modernidade. O livro se propõe a ser, então, um estudo sobre a dialética do processo e do movimento de modernização, o conjunto de processos sociais do século XX que “dão vida” (p. 25) ao turbilhão de mudanças. O autor decide assim dividir a modernidade em três fases: a primeira iria do início do século XVI até finais do século XVIII – nele as pessoas começariam a sentir os da modernidade sem plena consciência do que esta envolveria, logo não havendo ainda uma comunidade a se chamar de moderna; a segunda começa coma Revolução Francesa de 1789 e a “onda revolucionária” a ela subseqüente, a partir da qual teria surgido abruptamente um “grande e moderno público” (p. 25) – porém, com sentimentos e pensamentos anteriores a esse momento convivendo com as convulsões sociais dele oriundas, durante o século XIX dois mundos conviveriam lado a lado, permitindo a posteriori uma dicotomia entre modernidade e modernização; a terceira açambarcaria o século XX, com a modernidade atingindo níveis incomensuráveis de expansão e desenvolvimento cultural, remetendo à tese do autor. Para Berman, ao crescer e se expandir, a modernidade perde definição, perdendo assim contato com suas próprias raízes.
A cada uma dessas fases corresponderiam determinadas vozes, responsáveis pela identificação dos preceitos filosóficos e explicativos que a visão sobre as profundas transformações sentidas emanaria. A primeira fase teria sido marcada por Jean-Jacques Rousseau, o primeiro a usar a palavra “modernist” (p. 26). Ele acabaria por tornar-se a matriz dos conceitos de democracia participativa, “auto-especulação psicanalítica”, entre outras “vitais tradições modernas” (p. 26). Sua contribuição mais importante teria sido perceber o turbilhão do tempo e a forma como o ser humano era para este, ao mesmo tempo, ator e testemunha. A virada da primeira para a segunda fase veria a drástica mudança da paisagem européia e ocidental, com o surgimento das fábricas, o aumento das cidades, o esvaziamento dos campos, a poluição, as novas máquinas, desenvolvidas, por sua vez, para atenderem uma nova estrutura de produção. Marx apontaria as radicais contradições existentes na bases de um processo que era simultaneamente o ápice do desenvolvimento humano e o gerador de profundas desigualdades sociais. Para ele, somente os homens modernos, a classe produto da modernidade (o operariado) seria capaz de absorver as contradições do processo, cujo motor seria a dialética, e a mudança e a incerteza seus paradigmas. Ampliando o escopo da análise, Nietzsche demonstrou que a constante mudança e a dialética moderna se batem inexoravelmente com a religião e o compêndio de normas morais da sociedade, já que estas estariam presas a dogmas (lida especificamente com o Cristianismo). Esse choque levaria a questões como a “morte de Deus” e o “advento do niilismo” (p. 32). Ou seja, ao esvaziamento dos valores morais apontados, que acompanhado pela ambigüidade moderna, traduzir-se-ia na possibilidade de individualização do processo e, portanto, no florescimento de novas possibilidades do pensar e do viver entre o gênero humano. Assim, enquanto o passo além da modernidade para Marx envolvia a revolução social e abrangeria o campo político, para Nietzsche o homem moderno seria o agente capaz de gerar um novo compêndio de valores, agora de acordo com o novo ciclo de destruição e criação. Ambos concordavam que só a nova espécie de homem que surgia tinha potencial para “curar os ferimentos” (p. 33) de suas épocas.
A proposta do autor começa a se tornar mais nítida, conforme ele aponta como a visão de modernismo do século XIX prosperou no século XX, crescendo “para além de suas próprias esperanças selvagens” (p. 34) e vislumbrando um desenvolvimento de praticamente todos os setores da cultura. “Ainda assim, – afirma Berman – parece-me, não sabemos como usar nosso modernismo; nós perdemos ou rompemos a conexão entre nossa cultura e nossas vidas” (pp. 34-35). Para ele ainda, os pensadores do século XX, inspirado pelas doutrinas formuladas no século anterior, “resvalaram para longe, na direção de rígidas polarizações e totalizações achatadas” (p. 35). Portanto, a intelectualidade parece ter sido também desligada da cultura modernista, ou ao menos de seus propósitos originais. O resultado no século XX será, na visão de Berman, uma divisão entre os defensores e os detratores da modernidade. Os dois encarariam as inovações técnicas, o apogeu da máquina, a reforma do modelo político representativo com o crescimento das incumbências do Estado, produzindo diferentes conclusões a respeito dos mesmos fatos. O debate se alastraria para o campo artístico e cultural, com os futuristas do início do século, por um lado exaltando as conquistas da ciência, acompanhados por expressões posteriores mais moderadas, tal qual Le Corbusier, Gropius e a Bauhaus. Por outro Weber com a sua A Ética protestante e o espírito do capitalismo, diagnosticaria uma “ordem inexorável capitalista, legalista e burocrática” (p. 39), mantendo oprimida e cativa dentro de si a raça humana. Não só a raça humana seria impotente para conter esse aprisionamento como a partir dele passaria a ser definida e construída em sua identidade. O autor aponta este como um dos indícios do abismo entre os pensadores de meados do século XIX e aqueles de mais de cinqüenta anos depois, afinal para Marx e Nietzsche os homens modernos tinham capacidade não só de conhecer as grades de suas novas prisões morais, sociais, políticas e econômicas, mas também de, tendo-as compreendido, combatê-las e transformá-las. “Aqui (século XX), como nas formas futuristas e tecnopastorais do modernismo, o homem como sujeito (...) desapareceu” (p. 39).
No campo político, destacando os anos 60 em vistas da agudez tomada pelo processo de modernização durante essa década, o grupo dos detratores do modernismo, à direita (afirmando inspirar-se em Weber), passaram a conjecturar um mundo em que a democracia representativa tornava o processo decisório algo sob o controle de massas ignorante, formada pelos homens da modernidade, “’homens-massa’ (ou homens-ocos)” (p. 40), incapazes de se auto-governar, quanto mais governar toda a sociedade, a partir do princípio decisório determinado pela maioria, sendo necessário o estabelecimento de uma aristocracia profissional e técnica, que fosse capaz de fazê-lo. Enquanto isso, a partir da formação da Nova Esquerda, que remonta a uma época aproximada, em especial com a publicação de trabalhos de Marcuse, o modernismo passaria a ser identificado com o consumismo alienante, responsável por tornar as massas despreparadas para o processo revolucionário. Isso através do “paradigma unidimensional” (p. 41), denominado pelo autor a partir da percepção em voga de que seria impossível qualquer mudança a partir do povo, por este ter tido um contato demasiado longo com a modernidade. Surgindo dessa maneira o culto a uma vanguarda capaz de fazer a Revolução. Ela deteria esse potencial exatamente por não ter sido intoxicada pela modernidade. O autor apresenta então três tendências dissonantes a partir das quais poderia ser dividido o modernismo nos anos 1960: a afirmativa, a negativa e a ausente. A divisão se voltaria em especial para as escolas artísticas e de pensamento surgidas a partir do período, cujas formulações em se tratando do processo de modernização seriam “mais grosseiras e mais simples, menos sutis e menos dialéticas” (p. 41) pelo fato de renegarem a ambigüidade do mesmo, escolhendo demonizá-lo por completo ou entronizá-lo pelos seus aspectos considerados positivos, argumenta Berman. Por essas razões, defende que os pensadores do século XIX, mais que os do século XX, teriam conseguido apreender o verdadeiro sentido da modernidade, seu dinamismo, sua transformação constante, seguida da igualmente constante “epopéia” da construção, num movimento em que o homem, longe de ser prisioneiro, era sujeito e reator, sentindo e fazendo sentir um processo que não era nem só destruição permanente nem estruturas imutáveis e independentes, possuindo uma essência em si dialética.
Ainda durante os anos 60 do século XX, dois fenômenos teriam sido gerados a partir da imagem de radicalismo transmitida durante a década: uma reação neoconservadora, que passou a fantasiar a possibilidade um mundo impermeável ao modernismo, encarado pela imagem de “perturbação” (p. 43); e uma visão positiva sobre a modernidade, propulsionada por artistas envolvidos com a pop culture, interessados em eliminar as fronteiras entre o que se considerava “arte” e as outras atividades humanas, como a moda, o design e a tecnologia industrial. De acordo com Berman, o problema nesse grupo se encontrava na falta de desenvolvimento de uma perspectiva crítica deste em relação ao mundo, considerando negativa sua faceta aparentemente apolítica. Porém, como o autor ressalta:
“Todas essas visões e revisões da modernidade constituíram orientações ativas em relação à história, tentativas de conectar o conturbado presente com o passado e o futuro, a fim de ajudar os homens e mulheres de todo o mundo contemporâneo a se sentirem em casa nesse mundo.” (p. 45)
Nos anos 1970, para outros escolásticos, Berman conclui, a modernidade deixará de ser considerada em toda a sua importância, sendo Foucault o único escritor a tratar o tema, fazendo-o ainda assim a partir de uma única dimensão do processo, não enxergando, na visão do autor, o dinamismo nela presente. Isto porque o pensador francês tentou demonstrar a percepção de uma rede de relações de poder da qual não haveria escapatória, nem ao menos para ele. Berman insiste ainda na função de seu trabalho ser um resgate do “dinâmico e dialético dinamismo do século XIX” (p. 48), visando aprofundar as nossas próprias raízes modernas apontando assim para a importância desse processo unificador, seja em termos individuais, culturais ou temporais. Afirmando, por fim, a natureza humana dessa mesma cultura modernista, integrando novamente o homem ao processo.
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