“A Era dos Impérios (1875-1914)” – Capítulo 1
“A Revolução Centenária”
Eric J. Hobsbawn
No texto A Revolução Centenária, primeiro capítulo de A Era dos Impérios, Hobsbawn procura descobrir as transformações ocorridas por/no capitalismo e no mundo em geral no período de cem anos, que separa a Revolução Francesa e Industrial do fim do século XIX, percebendo um mundo que se tornava mais unificado, “global” de fato (p. 31), cujas distâncias diminuíam e se ampliavam os horizontes demográficos e culturais, graças ao contato com povos de outros continentes. Ao mesmo tempo em que se geravam grandes divisões sócio-econômicas e mesmo de produção e trabalho, entre os agentes analisados, diferenças cada vez maiores e mais caracterizadoras, as quais contrapunham países ricos a países pobres, países industriais e pré-industriais, demonstrando as desigualdades inerentes ao processo de desenvolvimento.
A “base da revolução econômica” em questão, para o autor, era a própria defasagem entre os países ocidentais (p. 32), que adquiriu proporções mais amplas, envolvendo todos os continentes, expandindo mercados e a velocidade desse movimento constante. “A tecnologia – complementa Hobsbawn – era uma das causas dessa defasagem, tanto econômica quanto politicamente” (p. 32), tendo a Revolução Industrial como chave para a compreensão da mesma. Esta representaria um grande salto produtivo, redundando em mudanças de aspectos políticos, sociais e culturais de certas regiões européias, garantindo as estruturas de fundamentação do modo de produção capitalista. A industrialização, ao permitir o aumento da capacidade produtiva, forneceria a oportunidade para os povos britânico, francês e norte-americano, bem como outros posteriormente, de expandirem sua presença e autoridade sobre diversos povos, graças á superioridade técnica dos novos armamentos e explosivos, responsáveis por garantir a submissão dos “defasados”. Estes seriam considerados opostos aos “desenvolvidos” (p. 32), no que sua identidade externa passaria a ser forjada pelos conquistadores, visto que este “Segundo Mundo” não possuiria laços históricos, culturais ou estruturas sociais capazes de inserir, sob a mesma denominação, países da África, América Latina e Ásia, nem ao menos o denominador que os uniria a partir da segunda metade do século XX: a pobreza em massa (p. 33).
Ainda assim, é necessário determinar que a Revolução Industrial, com o desenvolvimento de novas vias de escoação da produção, do transporte de mão-de-obra, mercadorias e transferência de capitais, oportunidades mais sólidas para a consolidação de um mercado mundial seriam construídas, e a partir desse a própria dinâmica do processo de desenvolvimento geraria dependência, atraso e desigualdade entre regiões díspares. A industrialização permitiria de tal forma a existência de um abismo entre continentes, países, regiões localizadas no mesmo Estado, e cidades na mesma região. A questão era:
“Se a existência dos dois setores do mundo (desenvolvido e defasado) era inegável, as fronteiras entre eles eram, no entanto, indefinidas, sobretudo porque o conjunto de estados através dos quais e pelos quais foi feita a conquista econômica – e, no período que nos ocupa, a conquista política – do planeta, estava unido tanto pela história quanto pelo desenvolvimento econômico. Esse conjunto de estados era a Europa (...)” (p. 34)
Portanto, se disparidades existiam dentro na Europa, a história, a política e “os séculos de expansão sobre o Segundo Mundo” ligaram até as parcelas atrasadas do Primeiro Mundo, pensa o autor (p. 35). Um dos exemplos mais destacados é o da Rússia czarista, cuja inserção no Ocidente envolve uma política maciça de “industrialização segundo o modelo ocidental” (p.36). Ela traduziria uma das facetas mais marcantes do processo de desenvolvimento decorrente da “Revolução Centenária” do século XIX: Riqueza e Miséria passariam a ser pressupostos fundamentais, não-excludentes, reproduzidos pelo Capitalismo. Porém, Hobsbawn busca também demonstrar que, ao lado disso, uma gama de movimentos políticos de massa passava a surgir nos grandes centros urbanos e industriais, embriões dos futuros partidos de massa socialistas e operários, cuja contribuição na segunda metade do século, juntamente com o liberalismo, foi exigir o livre acesso ao conhecimento, muitas vezes concentrado nas mãos de uma elite intelectual.
Nesse contexto, para Hobsbawn, é possível identificar os segmentos e países que se tornaram periféricos ao processo contínuo que se desenrolava a partir de alguns centros europeus, e aqueles que dele se tornariam vítimas, os quais integravam o Segundo Mundo. A chave para entender como isto se realizou é a dependência por parte destes, dos modelos e sistemas considerados avançados e sua incapacidade se manterem afastados do comércio e da tecnologia ocidentais. Pois cogitar dividir o Primeiro e Segundo Mundos em termos de predomínio urbano e rural, respectivamente, tornar-se-ia insustentável, afinal existiam grandes cidades em países dependentes do Ocidente (Buenos Aires, Pequim, Bombaim, Constantinopla) e muitos espaços do mundo “desenvolvido” tenham permanecido predominantemente agrícolas. No entanto, a partir da década de 1880, é possível perceber que apenas em determinados pólos da Europa estão ocorrendo movimentos de urbanização e industrialização, além de nestes se desenrolar a consolidação de modelos políticos próprios, os quais passariam a ser considerados indispensáveis para o advento do “progresso”: um sistema envolto nos conceitos de “nações-Estado liberais-constitucionais” (p. 41). O problema que se anunciava concernia à constatação de que em muitos locais do Segundo Mundo não existiam “nações-Estado”, mas sim entrepostos e colônias de povoamento ou exploração européias, quando não organizações políticas atacadas pelo que Hobsbawn define como “raquitismo”: o Império Otomano; o Império Persa; o Império Chinês. Sendo que ainda existiam diferenças estruturais na forma de governo e regime encontrados na maioria dos países “desenvolvidos”, inclusive ao serem comparados com os do Segundo Mundo.
O autor demonstra ainda que, tendo a “mudança” como motor do processo de desenvolvimento, tal teria na expansão da cultura, do conhecimento e, especificamente, da aplicação deste na forma da tecnologia, seu maior mecanismo de materialização. Aumentou-se o número de indivíduos alfabetizados bem como o acesso à leitura, a universidade e a ópera transformavam-se em reflexos da “penetração da civilização ‘ocidental’ dominante” (p. 46), e novas descobertas no campo da medicina permitiam uma maior qualidade e duração de vida. Estes fenômenos, percebidos pelos seus contemporâneos, somados aos avanços nas áreas da siderurgia, metalurgia, química, e á percepção do crescimento da produção material, permitiam a formação de uma visão otimista em relação ao futuro, caracterizado por imagens de abundância e superação dos obstáculos impostos pela natureza.
Entretanto, se nos grandes centros do processo apontado esse “otimismo” era mais perceptível, como observa Hobsbawn, o mundo estava divido entre a região “onde o ‘progresso’ nascera” e outra, muito maior, “onde chegara como conquistador estrangeiro, ajudado por minorias de colaboradores locais” (p. 53). Isso levou ao fortalecimento de um movimento de resistência a tudo aquilo que a “modernidade” simbolizava ou poderia vir a significar, do qual a Igreja Católica tornara-se o epicentro. A imposição de modos de produção e troca até então desconhecidos por determinados povos, de novas práticas culturais, valores e conceitos éticos, tanto quanto o elemento de desigualdade gerado e gerador do sistema econômico, provocavam traumas de adaptação em populações à margem do movimento percebido como benéfico por setores considerados elitistas e citadinos. Outros, no entanto, abraçariam o significado do advento do “progresso”, tal qual a mocidade militar organizada na Turquia (os Jovens Turcos), as lideranças políticas na França, Grã-Bretanha e EUA, além da intelectualidade ligada aos setores dominantes na América Latina. Novas teorias, que se supunham científicas, proporiam a solução para o problema daquilo que se via como a resistência ao desenvolvimento humano, e mesmo o entrava a ele. Estas encontravam a explicação na constituição “racial” dos indivíduos, a partir da qual se poderia determinar a propensão de um povo a esse “progresso”.
Com a crise econômica da década de 1870, novos dilemas interpelariam o homem “ocidental”: “Aonde, na verdade, levava (o progresso)?” (p. 55). O que de fato poderia se extraído a partir dele, e que mundo tinha possibilidade de surgir a partir das mudanças obtidas com a “Revolução Centenária”, como formulou Hobsbawn?
quarta-feira, 9 de abril de 2008
“O capitalismo unifica o mundo”
Francisco José Calazans Falcon
Em O capitalismo unifica o mundo, de Falcon, o autor procura analisar historicamente a formação de um mercado mundial e como este correspondeu ao desenvolvimento do capitalismo como modo de produção hegemônico e instrumento de união, ou contato, global. Para tanto o trabalho se inicia com a busca da definição de “mercado”, bem como de sua existência histórica. Sobre ele, Falcon conclui ser:
“(...) um ‘sistema’ de dimensões variáveis que articula todo um conjunto de mercados concretos, de produtos destinados ao consumo ou a novos negócios, ou de fatores de produção (terras, capitais, trabalho).” (p.15)
A seguir, se pode observar o recorte adotado no trabalho, dividindo o amplo período abrangido pela obra, que se remete ao período das Grandes Navegações até chegar ao final do século XIX, entre um processo formador pré-capitalista e outro já contemplado pelos mecanismos de construção da supremacia capitalista, tal qual a Revolução Industrial. Questionando se o próprio sistema capitalista existia entre os séculos XVI e XVIII, Falcon demonstra que, para todos os efeitos, já existia um “mercado mundial” (p. 17), responsável por integrar e hierarquizar regiões e modos de produção distintos, distribuídos entre “centro, periferia e semi-periferia” (p. 17), sendo assim um período de transição, no qual o processo de acumulação de capitais garantiria o estabelecimento das estruturas sócio-econômicas futuras. Porém, mesmo isso não afastaria, para o autor, a historicidade do espaço e a coexistência ao mesmo tempo de diversas “economias-mundo” diferentes entre si, ainda que em contato.
Portanto, para que fosse possível compreender a formação do mercado mundial, do qual os europeus teriam sido os propulsores, seria imprescindível apreender o caráter primordialmente espacial do movimento expansionista, ocasionado com as Grandes Descobertas do século XVI, além de precisar dimensioná-lo temporalmente, delimitando-o em períodos e caracterizando suas principais conjunturas. Sendo possível assim contrapor o antigo regime econômico ao novo regime econômico: o primeiro marcado pelo predomínio da agricultura em relação a uma indústria mínima e desarticulada de bens de consumo, com precários meios e condições de transporte e comunicação, e uma dinâmica de crises de subsistência, ligadas à produção de trigo; e a segunda representando o predomínio da indústria pesada, do meio urbano sobre o campo, trazendo rápido desenvolvimento da técnica de produção e dos meios de transportar mercadorias, matérias-primas e mão-de-obra, vigorando uma nova dinâmica de crises de superprodução e baixa dos preços.
O autor trabalha a partir daí com uma cronologia de prosperidade e depressão, contrapondo as fases de crise àquelas de amplo crescimento, enquanto articula economia, política e cultura em torno do eixo comum da expansão comercial e colonial européia, pesando também o impacto das mudanças presentes na historiografia dos séculos XIX e XX, pois se na primeira era apontada a visão do processo de conquista a partir do europeu, com as guerras de independência das décadas de 1950 e 60, a segunda passaria a abordar o olhar dos “vencidos”, dos povos atingidos pela colonização (p. 22). Assim o faz, ressaltando por outro lado, ser “coisa do passado” a “antiga perspectiva de uma expansão passivamente ‘sofrida’ pelos não europeus” (pp. 23-24).
Falcon começará por analisar a expansão pré-capitalista, apontando seu caráter ambíguo, visto que materializaria a convivência de uma “Sociedade de Corte” (p. 26) absolutista, mercantilista, metalista, centralizada em torno da Coroa e amparada por antigas constituições feudais como os estados e as ordens, com outra sociedade em formação. Esta veria uma burguesia comercial ascendente, ora nas repúblicas italianas ora na região dos Países Baixos, um grupo de banqueiros que começava a se tornar credor de reinos bem como de inúmeros empreendimentos navais, uma ampliação jamais vista do conhecimento científico e de trabalhos filosóficos que, pouco a pouco, passariam a contestar a visão do Universo até então transmitida e aceita como verdadeira pela Igreja. Nesse momento a história do capital comercial passaria a compreender dois grandes circuitos ou “complexos de rotas mercantis: o intra-europeu e o extra-europeu” (p. 31), e a busca por essas rotas levaria ao descobrimento pelos europeus de novos entrepostos econômicos, novas civilizações, na Ásia e na América. Alguns traços comuns determinariam o modus operandi da ocupação européia nestes locais, valendo-se de brutal violência a partir da superioridade militar marítima, com o uso de canhões, cavalos e mosquetes, submetendo pela força os adversários, assegurando a presença da Coroa “organizando, fiscalizando, gerindo e ordenando a todos e a tudo”, e a conversão dos nativos ao Cristianismo (p. 35).
Alternando períodos de hegemonia ibérica, holandesa e anglo-francesa, essa fase pré-capitalista da expansão européia chegaria ao auge do “antigo sistema colonial” que produzira, no último quartel do século XVIII, pouco antes de atingir a crise do mesmo, estando essa ligada à crise do Antigo Regime como um todo e à ascensão de um novo projeto de sociedade, transmitido pela Revolução Francesa em seus aspectos ordenadores das novas instituições políticas, e a Revolução Industrial na Inglaterra, no que concerne aos aspectos econômicos do processo. A primeira demonstraria a possibilidade da formação de um regime político, estruturado jurídica e legalmente de acordo com os pressupostos da burguesia, e não mais da nobreza, enquanto a segunda representaria “a progressiva supremacia do capitalismo industrial, ou seja, da produção capitalista e da industrialização” (p. 39). Tal seria possível pelo fato de se encontrar localizado em meio ao período de disputa anglo-francesa, que já vislumbrava um mercado internacional no século XVIII, formado por conexões mercantis e financeiras que ultrapassavam os espaços regionais, e conformando uma economia-mundo cujos centros principais encontravam-se no continente europeu.
A Era do Capitalismo Industrial contará agora com uma série de novas estruturas políticas, econômicas e sociais, cuja implantação se dará num longo espaço de tempo, de forma “lenta e difícil”, acompanhando o desenvolvimento da Revolução Liberal (conceito de Hobsbawn utilizado pelo autor) enquanto convive com muitos aspectos remanescentes da sociedade passada, já em estado de decadência. E mesmo o processo de industrialização possuindo ritmos diferenciados, envolvendo certos Estados europeus e excluindo outros, graças à Revolução Industrial e política por ele propugnada será possível determinar a vitória do modo de produção capitalista, representado pela máquina e a fábrica, sobre o Antigo Regime. Dessa maneira abrangerá também outra significação, a da “tomada de consciência da modernidade” (p. 46), perceptível inclusive nas manifestações de oposição a ela. Após essa onda revolucionária que assolará a Europa, no século XIX um novo contexto, e logo, uma nova forma de expansão, poderá ser construída. Esta, ao mesmo tempo, romperá com o padrão expansionista dos três séculos anteriores enquanto manterá muitas de suas características, porém, com objetivos, finalidades, motivações e métodos diferentes daqueles presentes no momento histórico anterior, sendo viável a realização de um corte do antes e do depois à década de 1870-1880.
Agora atores sociais gerados a partir do novo regime burguês exercerão os papéis centrais no processo de conquista e ocupação: os exploradores (desbravadores, cientistas, botânicos, pesquisadores, cartógrafos) responsáveis pelo desbravamento de territórios e pelo atiçamento do interesse do público europeu nos mesmos; os missionários (comumente os primeiros a chegarem às novas regiões desbravadas e a ter contato com os povos nativos, transmitindo a eles o que consideram a fé e cultura superiores da Cristandade); os militares (sempre enviados quando percebidas ameaças à vida dos estrangeiros residentes no além-mar, ou ao menos aos tratados comerciais firmados com os potentados estrangeiros pelos governos europeus); e os empresários (industriais, banqueiros, financiarão o estabelecimento de colonos, investirão nos mercados potenciais dos continentes explorados e emprestarão altas somas de dinheiro para os potentados locais, estabelecendo contratos e alianças econômicas que muito interessarão os governos de seus países natais).
O autor expandirá ainda um pouco mais seu trabalho, apontando nessa nova fase de expansão do capital a presença da hegemonia britânica e da configuração de um novo sistema colonial caracterizado por um “imperialismo do livre-câmbio” (p. 55), demonstrando dentro deste as diferenças entre “colônias de povoamento”, “colônias de exploração”, zonas de influência e protetorados (p. 55). Ao optar por dividir os casos analisados entre Império Otomano, África sul-saariana, Regiões asiáticas e Américas, permitirá a escolha dos mais ilustrativos dentre eles. Como o do Egito, no qual Falcon aponta terem sido “típicos da expansão capitalista” (p. 57) os métodos utilizados pela França e pela Grã-Bretanha no seu avanço sobre o potentado africano:
“(...) penetração econômica, facilidades financeiras, demonstrações navais, negociações diplomáticas entre as potências, à revelia dos maiores interessados – os colonizados!” (p. 57)
Não se prendendo a ele, analisará o impacto exercido pela incursão francesa na Argélia, e como esta designará os preceitos da guerra colonial, pelos britânicos na estruturação de sua administração na Índia e a maneira como se valerão das divisões étnicas, religiosas e lingüísticas para assentarem seu domínio sobre o subcontinente, entre outros. No seu trabalho acadêmico o autor buscou ir além das tendências historiográficas dominantes à sua época, ressaltando como o próprio termo “imperialismo” passara a ser descartada pelos historiadores não-marxistas, ainda que não se aprofundasse acerca de discussões específicas sobre conceitos gerais.
“A Era dos Impérios (1875-1914)” - Introdução
Eric J. Hobsbawn
Na Introdução de seu livro A Era dos Impérios, Eric Hobsbawn inicia suas divagações apontando uma nota autobiográfica, na qual narra a história de seus pais, como sua mãe teria vindo de Viena para visitar o Egito e lá teria encontrado o funcionário colonial inglês estacionado no Delta do Nilo pelo qual se apaixonaria e com o qual formaria uma família. Seu argumento envolve a noção de que, antes de tudo, somente naquele momento histórico seriam possíveis as circunstâncias do encontro, buscando ainda demonstrar como a análise daquele período específico passa por uma série de obstáculos sendo o principal sua natureza de “zona de penumbra” (p. 18). Isto porque a dinâmica da análise histórica sobre processos recentes se dá, para o autor, entre a história acadêmica e a história existencial, sendo fruto da memória especial de cada um:
“Pois todo mundo é historiador da própria vida passada consciente, na medida em que elabora uma versão pessoal dela: um historiador nada confiável (...)” (p. 18)
Porém, no caso de períodos cruciais para a época contemporânea, ou ao menos encarados como cruciais, sendo suficientemente próximos para influenciarem os dias do historiador, mas distantes demais para dele se obter informações a partir de testemunhas diretas, se cria uma espécie diferente de imagem:
“incoerente e incompletamente percebida do passado (...), sempre transmitida por uma mescla de aprendizado e memória de segunda mão moldada pela tradição pública e particular.” (p. 18)
Esta é a atmosfera que impregnaria a análise da Era dos Impérios, já que, como demonstra Hobsbawn, culminando com a eclosão da primeira Guerra Mundial em 1914, representou o apogeu do “longo século XIX” (p. 19), bem como o fim de um mundo feito “por e para a burguesia” (p. 19), o anúncio de uma nova etapa de desenvolvimento do capitalismo e da cultura moderna, representando: o auge do imperialismo; a ascensão dos movimentos socialistas e trabalhistas; o declínio econômico britânico; a natureza e as origens da Revolução Russa; as raízes da questão internacional que culminaria na Primeira Grande Guerra. Por conta disso, a partir daí, o autor aponta a formação de duas correntes historiográficas, distintas na forma como encaram o momento histórico analisado. Uma se voltaria para o passado, para uma espécie de saudosismo e revisionismo, descrevendo como por uma série de incidentes se pôs fim a uma Era que não precisava ter necessariamente acabado. Outra se volta para o futuro, comparando estruturas contemporâneas ao historiador e suas origens com aquelas encontradas entre 1890-1914, tal qual o estado de bem-estar social, o predomínio dos partidos social-democratas nos parlamentos europeus, ou a própria existência de partidos de massa e democracias representativas.
Porém, a visão do autor sobre o objeto (no caso, o “longo século XIX”) move-se de acordo com um eixo central, sendo este a construção do “triunfo” e a “transformação” do modo de produção capitalista na sua “forma historicamente específica da sociedade burguesa em sua versão liberal” (p. 23), partindo da “capacidade ilimitada do sistema produtivo (...) em promover crescimento econômico e penetração mundial” (p. 23) permitida pelo advento da Revolução Industrial na Inglaterra, em fins do século XVIII. Assim, conclui Hobsbawn, o mundo burguês da Era dos impérios não era o mesmo da sociedade liberal burguesa da primeira metade do século XIX, nem em suas estruturas produtivas e nem nas sócio-econômicas e políticas, mas dela dependendo para existir como tal, num processo acumulativo. A forma em si como se encaravam os sustentáculos do período anterior deixava de ser guiada pelo pressuposto de uma “forma permanente do mundo industrial moderno” para tornar-se “uma fase de seu desenvolvimento inicial” (p. 26), portanto, uma etapa dentro de um lento, porém, constante movimento de construção não só dos fundamentos básicos de uma nova sociedade capitalista mas da identidade por ela adqüirida.
Francisco José Calazans Falcon
Em O capitalismo unifica o mundo, de Falcon, o autor procura analisar historicamente a formação de um mercado mundial e como este correspondeu ao desenvolvimento do capitalismo como modo de produção hegemônico e instrumento de união, ou contato, global. Para tanto o trabalho se inicia com a busca da definição de “mercado”, bem como de sua existência histórica. Sobre ele, Falcon conclui ser:
“(...) um ‘sistema’ de dimensões variáveis que articula todo um conjunto de mercados concretos, de produtos destinados ao consumo ou a novos negócios, ou de fatores de produção (terras, capitais, trabalho).” (p.15)
A seguir, se pode observar o recorte adotado no trabalho, dividindo o amplo período abrangido pela obra, que se remete ao período das Grandes Navegações até chegar ao final do século XIX, entre um processo formador pré-capitalista e outro já contemplado pelos mecanismos de construção da supremacia capitalista, tal qual a Revolução Industrial. Questionando se o próprio sistema capitalista existia entre os séculos XVI e XVIII, Falcon demonstra que, para todos os efeitos, já existia um “mercado mundial” (p. 17), responsável por integrar e hierarquizar regiões e modos de produção distintos, distribuídos entre “centro, periferia e semi-periferia” (p. 17), sendo assim um período de transição, no qual o processo de acumulação de capitais garantiria o estabelecimento das estruturas sócio-econômicas futuras. Porém, mesmo isso não afastaria, para o autor, a historicidade do espaço e a coexistência ao mesmo tempo de diversas “economias-mundo” diferentes entre si, ainda que em contato.
Portanto, para que fosse possível compreender a formação do mercado mundial, do qual os europeus teriam sido os propulsores, seria imprescindível apreender o caráter primordialmente espacial do movimento expansionista, ocasionado com as Grandes Descobertas do século XVI, além de precisar dimensioná-lo temporalmente, delimitando-o em períodos e caracterizando suas principais conjunturas. Sendo possível assim contrapor o antigo regime econômico ao novo regime econômico: o primeiro marcado pelo predomínio da agricultura em relação a uma indústria mínima e desarticulada de bens de consumo, com precários meios e condições de transporte e comunicação, e uma dinâmica de crises de subsistência, ligadas à produção de trigo; e a segunda representando o predomínio da indústria pesada, do meio urbano sobre o campo, trazendo rápido desenvolvimento da técnica de produção e dos meios de transportar mercadorias, matérias-primas e mão-de-obra, vigorando uma nova dinâmica de crises de superprodução e baixa dos preços.
O autor trabalha a partir daí com uma cronologia de prosperidade e depressão, contrapondo as fases de crise àquelas de amplo crescimento, enquanto articula economia, política e cultura em torno do eixo comum da expansão comercial e colonial européia, pesando também o impacto das mudanças presentes na historiografia dos séculos XIX e XX, pois se na primeira era apontada a visão do processo de conquista a partir do europeu, com as guerras de independência das décadas de 1950 e 60, a segunda passaria a abordar o olhar dos “vencidos”, dos povos atingidos pela colonização (p. 22). Assim o faz, ressaltando por outro lado, ser “coisa do passado” a “antiga perspectiva de uma expansão passivamente ‘sofrida’ pelos não europeus” (pp. 23-24).
Falcon começará por analisar a expansão pré-capitalista, apontando seu caráter ambíguo, visto que materializaria a convivência de uma “Sociedade de Corte” (p. 26) absolutista, mercantilista, metalista, centralizada em torno da Coroa e amparada por antigas constituições feudais como os estados e as ordens, com outra sociedade em formação. Esta veria uma burguesia comercial ascendente, ora nas repúblicas italianas ora na região dos Países Baixos, um grupo de banqueiros que começava a se tornar credor de reinos bem como de inúmeros empreendimentos navais, uma ampliação jamais vista do conhecimento científico e de trabalhos filosóficos que, pouco a pouco, passariam a contestar a visão do Universo até então transmitida e aceita como verdadeira pela Igreja. Nesse momento a história do capital comercial passaria a compreender dois grandes circuitos ou “complexos de rotas mercantis: o intra-europeu e o extra-europeu” (p. 31), e a busca por essas rotas levaria ao descobrimento pelos europeus de novos entrepostos econômicos, novas civilizações, na Ásia e na América. Alguns traços comuns determinariam o modus operandi da ocupação européia nestes locais, valendo-se de brutal violência a partir da superioridade militar marítima, com o uso de canhões, cavalos e mosquetes, submetendo pela força os adversários, assegurando a presença da Coroa “organizando, fiscalizando, gerindo e ordenando a todos e a tudo”, e a conversão dos nativos ao Cristianismo (p. 35).
Alternando períodos de hegemonia ibérica, holandesa e anglo-francesa, essa fase pré-capitalista da expansão européia chegaria ao auge do “antigo sistema colonial” que produzira, no último quartel do século XVIII, pouco antes de atingir a crise do mesmo, estando essa ligada à crise do Antigo Regime como um todo e à ascensão de um novo projeto de sociedade, transmitido pela Revolução Francesa em seus aspectos ordenadores das novas instituições políticas, e a Revolução Industrial na Inglaterra, no que concerne aos aspectos econômicos do processo. A primeira demonstraria a possibilidade da formação de um regime político, estruturado jurídica e legalmente de acordo com os pressupostos da burguesia, e não mais da nobreza, enquanto a segunda representaria “a progressiva supremacia do capitalismo industrial, ou seja, da produção capitalista e da industrialização” (p. 39). Tal seria possível pelo fato de se encontrar localizado em meio ao período de disputa anglo-francesa, que já vislumbrava um mercado internacional no século XVIII, formado por conexões mercantis e financeiras que ultrapassavam os espaços regionais, e conformando uma economia-mundo cujos centros principais encontravam-se no continente europeu.
A Era do Capitalismo Industrial contará agora com uma série de novas estruturas políticas, econômicas e sociais, cuja implantação se dará num longo espaço de tempo, de forma “lenta e difícil”, acompanhando o desenvolvimento da Revolução Liberal (conceito de Hobsbawn utilizado pelo autor) enquanto convive com muitos aspectos remanescentes da sociedade passada, já em estado de decadência. E mesmo o processo de industrialização possuindo ritmos diferenciados, envolvendo certos Estados europeus e excluindo outros, graças à Revolução Industrial e política por ele propugnada será possível determinar a vitória do modo de produção capitalista, representado pela máquina e a fábrica, sobre o Antigo Regime. Dessa maneira abrangerá também outra significação, a da “tomada de consciência da modernidade” (p. 46), perceptível inclusive nas manifestações de oposição a ela. Após essa onda revolucionária que assolará a Europa, no século XIX um novo contexto, e logo, uma nova forma de expansão, poderá ser construída. Esta, ao mesmo tempo, romperá com o padrão expansionista dos três séculos anteriores enquanto manterá muitas de suas características, porém, com objetivos, finalidades, motivações e métodos diferentes daqueles presentes no momento histórico anterior, sendo viável a realização de um corte do antes e do depois à década de 1870-1880.
Agora atores sociais gerados a partir do novo regime burguês exercerão os papéis centrais no processo de conquista e ocupação: os exploradores (desbravadores, cientistas, botânicos, pesquisadores, cartógrafos) responsáveis pelo desbravamento de territórios e pelo atiçamento do interesse do público europeu nos mesmos; os missionários (comumente os primeiros a chegarem às novas regiões desbravadas e a ter contato com os povos nativos, transmitindo a eles o que consideram a fé e cultura superiores da Cristandade); os militares (sempre enviados quando percebidas ameaças à vida dos estrangeiros residentes no além-mar, ou ao menos aos tratados comerciais firmados com os potentados estrangeiros pelos governos europeus); e os empresários (industriais, banqueiros, financiarão o estabelecimento de colonos, investirão nos mercados potenciais dos continentes explorados e emprestarão altas somas de dinheiro para os potentados locais, estabelecendo contratos e alianças econômicas que muito interessarão os governos de seus países natais).
O autor expandirá ainda um pouco mais seu trabalho, apontando nessa nova fase de expansão do capital a presença da hegemonia britânica e da configuração de um novo sistema colonial caracterizado por um “imperialismo do livre-câmbio” (p. 55), demonstrando dentro deste as diferenças entre “colônias de povoamento”, “colônias de exploração”, zonas de influência e protetorados (p. 55). Ao optar por dividir os casos analisados entre Império Otomano, África sul-saariana, Regiões asiáticas e Américas, permitirá a escolha dos mais ilustrativos dentre eles. Como o do Egito, no qual Falcon aponta terem sido “típicos da expansão capitalista” (p. 57) os métodos utilizados pela França e pela Grã-Bretanha no seu avanço sobre o potentado africano:
“(...) penetração econômica, facilidades financeiras, demonstrações navais, negociações diplomáticas entre as potências, à revelia dos maiores interessados – os colonizados!” (p. 57)
Não se prendendo a ele, analisará o impacto exercido pela incursão francesa na Argélia, e como esta designará os preceitos da guerra colonial, pelos britânicos na estruturação de sua administração na Índia e a maneira como se valerão das divisões étnicas, religiosas e lingüísticas para assentarem seu domínio sobre o subcontinente, entre outros. No seu trabalho acadêmico o autor buscou ir além das tendências historiográficas dominantes à sua época, ressaltando como o próprio termo “imperialismo” passara a ser descartada pelos historiadores não-marxistas, ainda que não se aprofundasse acerca de discussões específicas sobre conceitos gerais.
“A Era dos Impérios (1875-1914)” - Introdução
Eric J. Hobsbawn
Na Introdução de seu livro A Era dos Impérios, Eric Hobsbawn inicia suas divagações apontando uma nota autobiográfica, na qual narra a história de seus pais, como sua mãe teria vindo de Viena para visitar o Egito e lá teria encontrado o funcionário colonial inglês estacionado no Delta do Nilo pelo qual se apaixonaria e com o qual formaria uma família. Seu argumento envolve a noção de que, antes de tudo, somente naquele momento histórico seriam possíveis as circunstâncias do encontro, buscando ainda demonstrar como a análise daquele período específico passa por uma série de obstáculos sendo o principal sua natureza de “zona de penumbra” (p. 18). Isto porque a dinâmica da análise histórica sobre processos recentes se dá, para o autor, entre a história acadêmica e a história existencial, sendo fruto da memória especial de cada um:
“Pois todo mundo é historiador da própria vida passada consciente, na medida em que elabora uma versão pessoal dela: um historiador nada confiável (...)” (p. 18)
Porém, no caso de períodos cruciais para a época contemporânea, ou ao menos encarados como cruciais, sendo suficientemente próximos para influenciarem os dias do historiador, mas distantes demais para dele se obter informações a partir de testemunhas diretas, se cria uma espécie diferente de imagem:
“incoerente e incompletamente percebida do passado (...), sempre transmitida por uma mescla de aprendizado e memória de segunda mão moldada pela tradição pública e particular.” (p. 18)
Esta é a atmosfera que impregnaria a análise da Era dos Impérios, já que, como demonstra Hobsbawn, culminando com a eclosão da primeira Guerra Mundial em 1914, representou o apogeu do “longo século XIX” (p. 19), bem como o fim de um mundo feito “por e para a burguesia” (p. 19), o anúncio de uma nova etapa de desenvolvimento do capitalismo e da cultura moderna, representando: o auge do imperialismo; a ascensão dos movimentos socialistas e trabalhistas; o declínio econômico britânico; a natureza e as origens da Revolução Russa; as raízes da questão internacional que culminaria na Primeira Grande Guerra. Por conta disso, a partir daí, o autor aponta a formação de duas correntes historiográficas, distintas na forma como encaram o momento histórico analisado. Uma se voltaria para o passado, para uma espécie de saudosismo e revisionismo, descrevendo como por uma série de incidentes se pôs fim a uma Era que não precisava ter necessariamente acabado. Outra se volta para o futuro, comparando estruturas contemporâneas ao historiador e suas origens com aquelas encontradas entre 1890-1914, tal qual o estado de bem-estar social, o predomínio dos partidos social-democratas nos parlamentos europeus, ou a própria existência de partidos de massa e democracias representativas.
Porém, a visão do autor sobre o objeto (no caso, o “longo século XIX”) move-se de acordo com um eixo central, sendo este a construção do “triunfo” e a “transformação” do modo de produção capitalista na sua “forma historicamente específica da sociedade burguesa em sua versão liberal” (p. 23), partindo da “capacidade ilimitada do sistema produtivo (...) em promover crescimento econômico e penetração mundial” (p. 23) permitida pelo advento da Revolução Industrial na Inglaterra, em fins do século XVIII. Assim, conclui Hobsbawn, o mundo burguês da Era dos impérios não era o mesmo da sociedade liberal burguesa da primeira metade do século XIX, nem em suas estruturas produtivas e nem nas sócio-econômicas e políticas, mas dela dependendo para existir como tal, num processo acumulativo. A forma em si como se encaravam os sustentáculos do período anterior deixava de ser guiada pelo pressuposto de uma “forma permanente do mundo industrial moderno” para tornar-se “uma fase de seu desenvolvimento inicial” (p. 26), portanto, uma etapa dentro de um lento, porém, constante movimento de construção não só dos fundamentos básicos de uma nova sociedade capitalista mas da identidade por ela adqüirida.
Assinar:
Comentários (Atom)