“Tudo que é sólido desmancha no ar: A aventura da modernidade”
Marshall Berman
O texto Modernidade: ontem, hoje e amanhã, introdução de Tudo que é sólido desmancha no ar, se propõe a analisar as reminiscências da Modernidade como processo de constante transformação do homem, em que ele se afirma ao mesmo tempo como agente e alvo dessas mudanças, e também dos conceitos por ele formulados em diversas épocas a respeito desse mesmo fenômeno. Nesse sentido, o autor detém-se consideravelmente nas formulações teóricas de Rousseau, Marx, Nietzsche e Foucault, considerando terem sido os três primeiros capazes de apreenderem o sentido e as raízes da modernidade e o último um exemplo de como a intelectualidade, a partir dos anos 70, teria se desligado do tema, ignorando a importância dos laços de união formados por ela, responsáveis por atingir a quase totalidade dos aspectos da vida humana. Em especial, Berman utiliza como exemplos de caso os diversos aspectos culturais do processo, traduzindo seu impacto nas artes, na literatura, na poesia, na arquitetura, e na própria forma como a arte passa a ser percebida, buscando englobar a partir dos anos 60 também o entretenimento de massas.
Antes de tudo, é importante estabelecer a visão do autor a respeito do tema. Para ele a modernidade “une a espécie humana” (p. 24), pois se trata de uma experiência que abrange a todos, sem qualquer distinção, envolvendo a destruição do antigo e a construção do novo, num movimento constante e ininterrupto. Sendo assim, ela implicaria uma união ambígua, visto que força todos a viverem sob uma permanente atmosfera de “desintegração e mudança, de luta e contradição, de ambigüidade e angústia” (p. 24). Esse sentimento levaria, por sua vez, à formulação tanto de mitos sobre um passado pré-moderno, dotado de qualidades utópicas, quanto de tradições oriundas da própria modernidade. O livro se propõe a ser, então, um estudo sobre a dialética do processo e do movimento de modernização, o conjunto de processos sociais do século XX que “dão vida” (p. 25) ao turbilhão de mudanças. O autor decide assim dividir a modernidade em três fases: a primeira iria do início do século XVI até finais do século XVIII – nele as pessoas começariam a sentir os da modernidade sem plena consciência do que esta envolveria, logo não havendo ainda uma comunidade a se chamar de moderna; a segunda começa coma Revolução Francesa de 1789 e a “onda revolucionária” a ela subseqüente, a partir da qual teria surgido abruptamente um “grande e moderno público” (p. 25) – porém, com sentimentos e pensamentos anteriores a esse momento convivendo com as convulsões sociais dele oriundas, durante o século XIX dois mundos conviveriam lado a lado, permitindo a posteriori uma dicotomia entre modernidade e modernização; a terceira açambarcaria o século XX, com a modernidade atingindo níveis incomensuráveis de expansão e desenvolvimento cultural, remetendo à tese do autor. Para Berman, ao crescer e se expandir, a modernidade perde definição, perdendo assim contato com suas próprias raízes.
A cada uma dessas fases corresponderiam determinadas vozes, responsáveis pela identificação dos preceitos filosóficos e explicativos que a visão sobre as profundas transformações sentidas emanaria. A primeira fase teria sido marcada por Jean-Jacques Rousseau, o primeiro a usar a palavra “modernist” (p. 26). Ele acabaria por tornar-se a matriz dos conceitos de democracia participativa, “auto-especulação psicanalítica”, entre outras “vitais tradições modernas” (p. 26). Sua contribuição mais importante teria sido perceber o turbilhão do tempo e a forma como o ser humano era para este, ao mesmo tempo, ator e testemunha. A virada da primeira para a segunda fase veria a drástica mudança da paisagem européia e ocidental, com o surgimento das fábricas, o aumento das cidades, o esvaziamento dos campos, a poluição, as novas máquinas, desenvolvidas, por sua vez, para atenderem uma nova estrutura de produção. Marx apontaria as radicais contradições existentes na bases de um processo que era simultaneamente o ápice do desenvolvimento humano e o gerador de profundas desigualdades sociais. Para ele, somente os homens modernos, a classe produto da modernidade (o operariado) seria capaz de absorver as contradições do processo, cujo motor seria a dialética, e a mudança e a incerteza seus paradigmas. Ampliando o escopo da análise, Nietzsche demonstrou que a constante mudança e a dialética moderna se batem inexoravelmente com a religião e o compêndio de normas morais da sociedade, já que estas estariam presas a dogmas (lida especificamente com o Cristianismo). Esse choque levaria a questões como a “morte de Deus” e o “advento do niilismo” (p. 32). Ou seja, ao esvaziamento dos valores morais apontados, que acompanhado pela ambigüidade moderna, traduzir-se-ia na possibilidade de individualização do processo e, portanto, no florescimento de novas possibilidades do pensar e do viver entre o gênero humano. Assim, enquanto o passo além da modernidade para Marx envolvia a revolução social e abrangeria o campo político, para Nietzsche o homem moderno seria o agente capaz de gerar um novo compêndio de valores, agora de acordo com o novo ciclo de destruição e criação. Ambos concordavam que só a nova espécie de homem que surgia tinha potencial para “curar os ferimentos” (p. 33) de suas épocas.
A proposta do autor começa a se tornar mais nítida, conforme ele aponta como a visão de modernismo do século XIX prosperou no século XX, crescendo “para além de suas próprias esperanças selvagens” (p. 34) e vislumbrando um desenvolvimento de praticamente todos os setores da cultura. “Ainda assim, – afirma Berman – parece-me, não sabemos como usar nosso modernismo; nós perdemos ou rompemos a conexão entre nossa cultura e nossas vidas” (pp. 34-35). Para ele ainda, os pensadores do século XX, inspirado pelas doutrinas formuladas no século anterior, “resvalaram para longe, na direção de rígidas polarizações e totalizações achatadas” (p. 35). Portanto, a intelectualidade parece ter sido também desligada da cultura modernista, ou ao menos de seus propósitos originais. O resultado no século XX será, na visão de Berman, uma divisão entre os defensores e os detratores da modernidade. Os dois encarariam as inovações técnicas, o apogeu da máquina, a reforma do modelo político representativo com o crescimento das incumbências do Estado, produzindo diferentes conclusões a respeito dos mesmos fatos. O debate se alastraria para o campo artístico e cultural, com os futuristas do início do século, por um lado exaltando as conquistas da ciência, acompanhados por expressões posteriores mais moderadas, tal qual Le Corbusier, Gropius e a Bauhaus. Por outro Weber com a sua A Ética protestante e o espírito do capitalismo, diagnosticaria uma “ordem inexorável capitalista, legalista e burocrática” (p. 39), mantendo oprimida e cativa dentro de si a raça humana. Não só a raça humana seria impotente para conter esse aprisionamento como a partir dele passaria a ser definida e construída em sua identidade. O autor aponta este como um dos indícios do abismo entre os pensadores de meados do século XIX e aqueles de mais de cinqüenta anos depois, afinal para Marx e Nietzsche os homens modernos tinham capacidade não só de conhecer as grades de suas novas prisões morais, sociais, políticas e econômicas, mas também de, tendo-as compreendido, combatê-las e transformá-las. “Aqui (século XX), como nas formas futuristas e tecnopastorais do modernismo, o homem como sujeito (...) desapareceu” (p. 39).
No campo político, destacando os anos 60 em vistas da agudez tomada pelo processo de modernização durante essa década, o grupo dos detratores do modernismo, à direita (afirmando inspirar-se em Weber), passaram a conjecturar um mundo em que a democracia representativa tornava o processo decisório algo sob o controle de massas ignorante, formada pelos homens da modernidade, “’homens-massa’ (ou homens-ocos)” (p. 40), incapazes de se auto-governar, quanto mais governar toda a sociedade, a partir do princípio decisório determinado pela maioria, sendo necessário o estabelecimento de uma aristocracia profissional e técnica, que fosse capaz de fazê-lo. Enquanto isso, a partir da formação da Nova Esquerda, que remonta a uma época aproximada, em especial com a publicação de trabalhos de Marcuse, o modernismo passaria a ser identificado com o consumismo alienante, responsável por tornar as massas despreparadas para o processo revolucionário. Isso através do “paradigma unidimensional” (p. 41), denominado pelo autor a partir da percepção em voga de que seria impossível qualquer mudança a partir do povo, por este ter tido um contato demasiado longo com a modernidade. Surgindo dessa maneira o culto a uma vanguarda capaz de fazer a Revolução. Ela deteria esse potencial exatamente por não ter sido intoxicada pela modernidade. O autor apresenta então três tendências dissonantes a partir das quais poderia ser dividido o modernismo nos anos 1960: a afirmativa, a negativa e a ausente. A divisão se voltaria em especial para as escolas artísticas e de pensamento surgidas a partir do período, cujas formulações em se tratando do processo de modernização seriam “mais grosseiras e mais simples, menos sutis e menos dialéticas” (p. 41) pelo fato de renegarem a ambigüidade do mesmo, escolhendo demonizá-lo por completo ou entronizá-lo pelos seus aspectos considerados positivos, argumenta Berman. Por essas razões, defende que os pensadores do século XIX, mais que os do século XX, teriam conseguido apreender o verdadeiro sentido da modernidade, seu dinamismo, sua transformação constante, seguida da igualmente constante “epopéia” da construção, num movimento em que o homem, longe de ser prisioneiro, era sujeito e reator, sentindo e fazendo sentir um processo que não era nem só destruição permanente nem estruturas imutáveis e independentes, possuindo uma essência em si dialética.
Ainda durante os anos 60 do século XX, dois fenômenos teriam sido gerados a partir da imagem de radicalismo transmitida durante a década: uma reação neoconservadora, que passou a fantasiar a possibilidade um mundo impermeável ao modernismo, encarado pela imagem de “perturbação” (p. 43); e uma visão positiva sobre a modernidade, propulsionada por artistas envolvidos com a pop culture, interessados em eliminar as fronteiras entre o que se considerava “arte” e as outras atividades humanas, como a moda, o design e a tecnologia industrial. De acordo com Berman, o problema nesse grupo se encontrava na falta de desenvolvimento de uma perspectiva crítica deste em relação ao mundo, considerando negativa sua faceta aparentemente apolítica. Porém, como o autor ressalta:
“Todas essas visões e revisões da modernidade constituíram orientações ativas em relação à história, tentativas de conectar o conturbado presente com o passado e o futuro, a fim de ajudar os homens e mulheres de todo o mundo contemporâneo a se sentirem em casa nesse mundo.” (p. 45)
Nos anos 1970, para outros escolásticos, Berman conclui, a modernidade deixará de ser considerada em toda a sua importância, sendo Foucault o único escritor a tratar o tema, fazendo-o ainda assim a partir de uma única dimensão do processo, não enxergando, na visão do autor, o dinamismo nela presente. Isto porque o pensador francês tentou demonstrar a percepção de uma rede de relações de poder da qual não haveria escapatória, nem ao menos para ele. Berman insiste ainda na função de seu trabalho ser um resgate do “dinâmico e dialético dinamismo do século XIX” (p. 48), visando aprofundar as nossas próprias raízes modernas apontando assim para a importância desse processo unificador, seja em termos individuais, culturais ou temporais. Afirmando, por fim, a natureza humana dessa mesma cultura modernista, integrando novamente o homem ao processo.
terça-feira, 25 de março de 2008
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